sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O sangue sempre a salvou (parte 2)

Para os que começaram a ler agora, um rapidíssimo resumo da primeira parte deste conto: Clara, filha de fazendeiro, nascida nos idos de 1870 no Brasil, sempre fora salva, de uma forma ou de outra, pelo sangue. Literalmente. Porém dessa vez a coisa era mais grave.

Ela queria sangue. Muito sangue. Só aquela quantia usual já não seria suficiente.
Clara havia acabado de completar 16 anos de idade. Corria o ano de 1886; as velhas e fiéis escravas que tanto auxiliaram Clara em seus episódios de salvamento pelo sangue haviam sido libertas no ano anterior, devido à Lei dos Sexagenários. Apenas escravas mais novas, não tão ligadas à menina restavam agora na casa grande. Os movimentos abolicionistas cada vez mais efervescentes apenas causavam que as crises de enxaqueca e as explosões de fúria de seu pai, o rico Dom Siqueira piorassem. A libertação compulsória de antigos escravos no ano anterior o deixara ainda mais taciturno e distante da família do que antes.
Porém, alguns meses antes do aniversário de Clara, durante o rigoroso inverno, seu pai conhecera um rico fazendeiro canavieiro que compartilhava das mesmas ideias anti-abolicionistas que Dom Siqueira e se fizeram grandes amigos. Apesar de grande fazendeiro, já não era tão jovem e permanecia solteiro. Segundo ele, os negócios o haviam feito deixar o constituir família para segundo plano. No entanto, com a economia mudando tão rapidamente, pensava ele que já era hora. Dom Carvalho era seu nome e, quando veio a conhecer a doce e terna Clara, foi tomado de um encantamento selvagem pela menina-moça. Tratou logo de pedir a mão da garota ao pai. Apesar de distante da família, Dom Siqueira sabia que a menina ainda não tinha de fato se tornado moça, pois ainda não lhe vieram as regras. Mas fechou acordo mesmo assim:
— Vamos fazer assim, compadre. Quando a menina realmente se tornar moça voltamos a falar do assunto. Enquanto isso, vosmecê vai pensando no dote que pensa oferecer pela mão de minha preciosa filha.
Dona Antonia, mãe de Clara, ouviu tudo e ficou apreensiva. Foi à vila com pretexto de adquirir fazenda para um novo vestido, mas pensando em consultar-se com a velha Inácia e também com Jacira (não tão velha, mas alforriada com a ajuda da sinhá). Explicou-lhes a situação e perguntou de chofre:
— Jacira, eu sei que você trabalhou numa fazenda para os lados de São Carlos, onde Dom Carvalho tem suas terras. Sabe alguma coisa da fama desse homem com as mulheres, sejam escravas ou livres?
Jacira hesitou por um momento, mas sentindo a importância da pergunta (ainda que não o sentido dela), despejou:
— Homem violento, sinhá. Quando quer uma mulata vai lá e passa nos peitos, nova, velha, casada, prenhe... Algumas mulheres brancas, mais necessitadas, se dispuseram a deitar com ele em troca de dinheiro. Mas assim que as três ou quatro primeiras o fizeram espalharam logo um boato e ninguém mais quis. Dizem que as coitadas que passam pela experiência ficam sem poder sentar por uma semana.
Vendo a palidez da ex-patroa, Inácia já antevê:
— A sinhá tá priguntando isso por conta de sinhazinha Clara, num é memo?
Não precisou de resposta. Só o olhar de Antonia já dizia tudo.
— Mas a minina num teve as regra inda num é memo? O jeito é torcê pr'inda demorá mais um tanto... Quem sabe ele isquece ela...
No entanto, não foi bem assim. Em menos de um mês após o aniversário de 16 anos, a menarca veio. "E agora, meu esmeraldino? O sangue desta vez falhou em me salvar", pensava Clara. "Que será de nós, olhos de gato? Já não poderemos ficar juntos...". Sim, ela estava apaixonada. Sim, era correspondida e, como de praxe, era amor proibido. Mas nada podia fazer. Apenas suspirar, chegar-se à janela, olhar para a lua e esperar que o rapaz chegasse oculto pelas sombras da noite, como um romeu clandestino, até a janela de Clara para saber as más notícias.
— Pedro... — sussurrou a sinhazinha, com a voz embargada pelas lágrimas.
O moço estacou por um momento. Já sabia o que ela não estava conseguindo lhe dizer. Apenas se aproximou. Tomou-lhe as mãos, beijando-as com delicadeza e disse:
— Então devo partir, minha branca Lua. Mas estarei à espreita. Se há justiça neste mundo, ainda ficaremos juntos. E caso aquele almofadinha erga um dedo contra vosmecê, ele há de sentir a fúria dos golpes furtivos aprendidos entre os meus. Não tema, meu Copo de leite. Saiba que lhe amarei pela vida toda.
E desapareceu nas sombras da noite.

Sim, ela estava só sem seu amor (embora sempre avistasse um vulto de olhos ferinos espreitando a curta distância, onde quer que fosse). O sangue que antes a salvara, agora a desgraçara. O casamento foi marcado rapidamente. Esperariam passar apenas as festas de fim de ano, e as bodas seriam no fim de Janeiro. A festa de ano bom veio, e passou. O casamento foi adiado, pois Dom Carvalho caiu de cama com febre e alguns furúnculos. Diziam ser alguma doença no sangue (adquirida de alguma mulher da vida). "O sangue me salvou, ainda que indiretamente. Será um bom sinal?", torcia a garota. Remarcaram para maio. Faltavam quinze dias e nada acontecia. "Acho que desta vez terei de cumprir minha sina", suspirou Clara.
Estava errada. Finalmente ele veio resgatá-la. Sangue, muito sangue. Cinco dias, seis, sete, oito e nada da regra cessar. No décimo dia, quando seu noivo veio visitá-la, ficou sabendo de seu estado de saúde. Fez um esgar de nojo, que o fez esquecer completamente do encantamento selvagem que sentia por Clara e exclamou, jogando as rosas brancas que trouxera ao chão:
— Tesconjuro! Essa mulher deve estar é amaldiçoada e impura! Não posso me contaminar com isso. E levo meu dote comigo. Passar bem!
E partiu para nunca mais voltar. Alguns dizem que viu um par de olhos fantasmagóricos numa curva da estrada e por isso não pôs mais os pés naquela região. Outros dizem também que as rosas brancas transformaram-se em vermelhas assim que o canavieiro deixou a casa grande. Mas isso já é especulação e crendice.
A verdade é que Clara se recuperou bem da hemorragia (com o auxílio do famoso chouriço de Jacira) e, com o auxílio da mãe, conseguiu voltar a encontrar-se às escondidas com Pedro (porém de forma inocente, afinal eram a década de 1880!).
O ano de 1888 chegou, e o famoso dia 13 de maio veio para acabar com a escravidão no Brasil no mesmo dia em que Clara fazia 18 anos. Era também seu dia de libertação.
O pai ficou louco no mesmo dia, devido à perda de todos seus escravos. Dona Antonia assumiu o que restava dos negócios de seu marido e se tornou ainda mais próspera que ele, investindo o que podia em transformar a fazenda num vinhedo, auxiliada pelos recém-chegados imigrantes italianos. Por ter chegado já à maioridade, com a bênção da mãe, finalmente pôde unir-se a seu amado Pedro, o rapaz por quem ficou cativa desde o dia na cachoeira. E o sangue agora só veio selar o pacto dos amantes de estarem juntos por toda a vida.
Sim, o sangue a salvara. O sangue fora sua aliança. O sangue corria em suas veias da mesma forma que em seu amado cor de ébano dono dos hipnóticos olhos verdes...
E corre em todos nós: quente, vermelho, sem distinção de credo, raça ou sexo...

FIM

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O sangue sempre a salvou...

Ela queria sangue... O sangue sempre a salvou. Explico.
Ela nascera numa fazenda colonial, interior de São Paulo, filha de cafeeiro nos idos de 1870. A escravidão era coisa abominável, mas aceita como parte da vida (assim como a violência nos grandes centros hoje). Clara (esse era o nome dela) olhava com os grandes olhos castanhos, emoldurados pelos longos cílios negros, todos aqueles meninos, meninas, senhoras e senhores de cor tão lustrosa e bela, e não entendia, em sua tenra idade, por que eles recebiam como paga pelo trabalho árduo condições tão mesquinhas, enquanto ela, sem fazer nenhum esforço, comia e vestia do bom e do melhor. Na verdade, ela nunca entendeu por que se chegou a esse ponto.
Mas o que importa é que o sangue sempre a salvou. Ainda pequenina, contando com 5 anos de idade na época, caiu muito enferma, diagnosticada com profunda anemia. Inácia, a escrava mais velha, agora privilegiada com o trabalho de cozinheira, foi logo dizendo:
— Ih, sinhá, isso aí é trabaio que fizero pra suncê e vossa famía. Tem que benzê sinhazinha com galho de arruda, sal grosso e fazê muita reza braba. Má pó dexá que posso encomendá um otro trabaio pa disfazê esse quebrante...
A sinhá Antonia, mãe de Clara, atordoada com a doença súbita da filha e o medo de que o senhor seu marido, o poderoso Dom Siqueira, soubesse da existência da prática dos cultos africanos em sua senzala, apenas disse:
— Deixe estar, Inácia. Mas agradeço as rezas, que são sempre bem-vindas.
Mais tarde, a mucama Jacira veio ajeitar a menina em lençóis limpos e, sabendo do oferecimento de Inácia, comentou:
— Num ligue pra Inácia, sinhá. Ela acredita mesmo nessas coisas do candomblé. Tive algum estudo na fazenda do meu senhor anterior, e sei que essas coisas são crendices. O que era bom para a sinhazinha era comer um bom chouriço, de preferência recém-preparado. Se a sinhá quiser, posso...
Horrorizada com a sugestão de tal prato vil, Antonia exclamou:
— Minha Virgem Santa! Longe de nós consumir isso! Que Deus me perdoe, mas nunca mais dirija a palavra a mim, ouviu bem?
No entanto, foi só o quadro da menina piorar um pouquinho mais que sinhá Antonia voltou atrás em suas esconjurações.
— Dê a comida à menina hoje, mas que ninguém saiba. Nem mesmo eu, Jacira!
A dieta caiu como luva e a menina recuperou logo a saúde. Essa foi a primeira vez que o sangue a salvara.
De outra feita, quando Clara já contava com 10 anos foram ela e duas coleguinhas da escola cabular aula às margens do rio num dia muito quente de sol. Tiraram os sapatos e as meias e chapinhavam nas águas frescas com os pés nus. Já havia uns bons minutos que estavam ali quando viram o rapazote. Negro, escravo, contando com uns 15 anos já. Clara ficou hipnotizada por uns instantes pelos incomuns olhos esmeralda do rapaz. Provavelmente fruto de uma indiscrição de um sinhô europeu com alguma mucama faceira. Ficaram as três sem fala olhando para o garoto. Quando pensavam em gritar, o menino falou com voz grave, mas gentil:
— As sinhazinhas querem que Pedro apanhe umas mangas pra chupar? Tem uma mangueira bem carregada ali do outro lado... Se sinhazinhas quiserem... — e falava isto olhando apenas para a pele alva de Clara em contraste com os cabelos negros como a noite.
E antes que suas amigas pudessem esboçar resposta, nossa menina responde:
— Sim, queremos algumas mangas "de vez".
Todos se entreolharam, riram encabulados e, mais rápido que um corisco o mulatinho foi e apanhou uma camisa cheia de mangas que foram prontamente devoradas. A hora passou e todos ficaram apavorados ao perceber quão atrasados estavam. O pequeno escravo saiu correndo pela mata em direção à sua fazenda, e as meninas, mais do que depressa limparam as bocas na água do rio, colheram as meias e os sapatos e dispararam em direção à cidade, a tempo de ouvirem o último sino da escola tocar.
Clara, no entanto, foi descoberta. A mãe, Antonia, havia ido um pouco mais cedo à escola para que fossem juntas ao empório. Não deu nem tempo à menina de recuperar o fôlego, disparando:
— Muito bonito, dona Clara! Que fazia fora da escola? Cabulando aula? Depois de todo trabalho que me custou convencer seu pai a deixá-la vir à escola? Diga-me, que fazia fora da escola?
A mãe gesticulava a mão enluvada, empunhando um leque, enquanto ia ficando cada vez mais vermelha de nervosismo. Clara não sabia o que dizer; ai dela se a mãe descobrisse que além de vadiar com as amigas, ainda tivera como companheiro um jovem escravo. A aflição foi tamanha, e ainda perturbada pela corrida até ali, sentiu que a cabeça rodava e a quentura do rosto descia pelo nariz. Passou a mão e percebeu que sangrava. A mãe parou de gritar e ficou pálida no mesmo momento.
— Filha, te sentes bem? Fale comigo, Clara!
A menina sentia tudo girar e só percebeu que desmaiara ao acordar instantes depois com a cabeça no colo da mãe e a enfermeira do grupo escolar segurando um lenço molhado pressionando suas narinas e a cabeça para trás. Ainda que não pudesse esboçar grande reação, sorriu por dentro já que não precisaria dar maiores explicações. O sangue a salvara mais uma vez.
E assim foi... Toda vez que Clara se metia em pequenas encrencas, o nervosismo e a tensão provocavam que seu lindo narizinho destilasse sangue, vermelho e quente sangue. O sangue sempre a salvara...
Mas chegou a época que só esse sangue não seria suficiente... Aliás, Clara pensou que o sangue agora iria acabar com sua vida. (Continua...)