sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Mini Sentimentos #3


ESPERANÇA

É como o sabonete mais liso que existe. Você quer e precisa dela para limpar sua alma e pensamentos, mas ela invariavelmente escorrega das mãos...

Mini Sentimentos #2



TRISTEZA

É quando você tenta desesperadamente se agarrar a uma esperança, mas suas mãos e unhas escorregam. Então, você se deixa cair no abismo vazio...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Mini Sentimentos #1


SOLIDÃO

Momento perigoso, quando o amor de um desconhecido se transforma em necessidade vital.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Insensível

A dor que dói
Não é a que se vê
A dor que dói
Não é a que foi falada

Ela dói, calada
Inconfessável, imperturbável,
Inconsolável

Quem dera não se sentisse
E não me refiro à dor
Pois ela é refugo, resquício
A dor que dói
É sobra do que foi,
Do que poderia ter sido,
E do que não será

A dor que dói
Quisera dar-lhe um nome,
Mas nem isso o destino permitiu
E a lágrima engolida
Com orgulho se omitiu
E a boca, disfarçando, sorriu

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

As Sombras


Por que eu ainda insisto?
Não há nada lá, nem aqui
A verdade não está lá fora,
Muito menos aqui dentro
Talvez até exista uma verdade
Mas as que eu conheço não são mais suficientes

Aqui dentro só, muito só
Só as sombras me acompanham
E mesmo elas se calam
Nem mesmo elas querem falar

Sempre pensei que ser diferente
Era ser alguém
Ser única era ser exclusiva
Não quero mais...
Quero ser igual, igual a alguém
Alguém que queria ser igual a mim
Alguém que combine comigo,
Meu espelho

Mas não sei ser outra pessoa
Diferente de mim
Não aprendi isso na escola,
Nem na vida
Não sei se aprenderei...

Cansada...
Vou lá agora, com as sombras
Elas não me entendem, não me consolam
Mas elas estão lá
Ao menos me escondem
Me esqueça, eu me esquecerei
Como a sombra desaparece em dia de chuva...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Este é mais um trabalho para... VOCÊ!

What we do in life, echoes in eternity...

Hoje foi um dia agitado
Como todos
Gatinhos em árvores, donzelas em trilhos
Rapazes em motos e carros
Uma velhinha querendo atravessar a rua
Ajuda com a lição de casa

Sim, ajudei a todos
É meu papel, minha vocação
Afinal, esse é meu trabalho,
Ser heroína

E nessa vida o dever nos chama,
E a glória está nos olhos agradecidos
No doar-se, esperando o reconhecimento
Mas sem depender dele
Pois as pessoas são falhas
Mas não o herói

Não...
O herói não pode falhar
A heroína não pode desesperar
Temos de ser fortes,
Sorrir sempre,
Manter corpos e dentes impecáveis
E claro, retocar nossa supermaquiagem
Para que não vejam nossa identidade secreta
Nossa solidão secreta

Sim salvamos, sim ajudamos
Sim, quase sempre estamos dispostos
Mas o arquiinimigo está sempre a postos
Tramando, urdindo,
Visando nosso ponto fraco
Porque ele sabe, o vilão sabe
Ele está aqui dentro de nós, heróis
Somos nós mesmos nossas nêmesis

Mas não é isso que nos detém
A heroína limpa o sangue, limpa o suor
Arruma a unha quebrada
O herói se sacode, retesa os músculos
Arruma o topete
E lá vamos nós de novo
Ao resgate

No entanto, ao fim do dia
Enquanto os que ajudamos vão pra casa
Acompanhados de seus entes queridos
Arranhados, mas felizes por estar a salvo
Nós, os heróis,
Voltamos a nossos covis, nossos esconderijos
Sós
Muito sós
Totalmentente sós
Completamente SOS

Help me!!!
Espero que alguém ouça meu pedido de socorro...

domingo, 24 de outubro de 2010

Só por hoje


Só por hoje, me dê a mão
Em vez de pedir a minha
Só por hoje, me declare seus sentimentos
Em vez de receber os meus
Só por hoje...

Num dia sou heroína,
Mas hoje quero ser a donzela
Normalmente sorrio,
Mas hoje quero chorar
Só pra minhas lágrimas você enxugar

Só por hoje, é só hoje
Me abrace com segundas intenções
Só por hoje
Olhe em meus olhos, hipnotizante
Prometo que é só por hoje

Porque este é um dia de contradições,
Dia de correr pra longe, dia de ficar no quarto
Esquecer tudo, mas pensar a mil
Dia de amar, mas de matar o sentimento
Que é pra não sofrer, que é pra não ser patética
Só por hoje...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Devil or Angel Inside

"Monstros são reais, e fantasmas também. Eles vivem dentro de nós, e às vezes, eles vencem." - Stephen King.

"Confio em todo mundo, só não confio no demônio dentro deles." (John Bridger - personagem de Donald Sutherland em "Saída de Mestre")

Money, it's a crime • Share it fairly • But don't take a slice of my pie • Money, so they say • Is the root of all evil today But if you ask for a rise • It's no surprise that they're • Giving none away
(trecho da música "Money" de Pink Floyd)



Você pode estar se perguntando o que essas três citações têm a ver umas com as outras. Bem, as duas primeiras têm um elo mais visível, mas... E quanto à letra da música?
Estava pensando há um tempo atrás nessa relação e me peguei pensando no mesmo esses dias...
O fato é que tenho a impressão de que quanto mais a gente se conhece, mais esqueletos vai encontrando dentro do armário do próprio ser...
É verdade que as pessoas muitas vezes nos surpreendem, de forma positiva e negativa (verdade seja dita, muito mais negativamente que positivamente), e temos uma tendência natural como seres humanos a julgar os demais ou tentar adivinhar que reação terão.
Porém quando se toma um tempo para pensar vemos que até mesmo nós nos surpreendemos com as reações que temos em situações bem diferentes, e não só em períodos de crise, necessidade ou onde temos que reagir quase instantaneamente.
Por exemplo, às vezes me pego pensando e dizendo: "não dou esmola, não compro coisas de criança na rua". Até cumpro o que disse, mas, num belo dia de sol, lá estou eu comprando um pacotinho de bala dum menino educadinho que as oferece. É mais ou menos o que diz a letra da música Money. As pessoas "de bem" sempre dizem que as coisas materiais devem ser repartidas, mas isso dura até o momento em que elas devem mexer no próprio bolso. O altruísmo 100% puro é muito raro de encontrar, praticamente impossível (e digo isso por mim mesma!).
Ou então, quando começo a me questionar a respeito de Deus ou das coisas dEle, não demora muito acabo falando para quem precisa uma palavra especial sobre o Pai Celestial sem nem fazer esforço (tudo bem que essa parte quem acaba fazendo é Ele mesmo, já que as palavras acabam saindo sem eu nem pensar muito).
Para certas situações, sempre me pego imaginando como eu reagiria, como responderia à(s) pessoa(s) envolvida(s), e quando a ocasião chega me surpreendo fazendo ou dizendo coisas que nem tinha pensado a respeito.
Outra faceta que posso citar é que, na adolescência eu era muito fechada. Meus amigos, geralmente, eram aqueles que tinham feito amizade com minha irmã primeiro (ela sempre foi a extrovertida). Comecei a mudar quanto entrei na faculdade e tive que me virar arrumando minhas próprias amizades. Hoje sou uma tagarela compulsiva e adoro me relacionar com as pessoas (embora isso cause a maior parte das dores de cabeça que tenho), e faço isso sem esforço nem sacrifício.
É assustador por vezes! A gente se preocupa tanto com o que os outros podem fazer ou dizer, mas nem se dá conta do monstro que criamos por dentro de nós mesmos... É um potencial tanto heróico quanto destrutivo.
Peço muito a Deus que me ilumine em certas situações porque fico, de verdade, de queixo caído com o jeito que as coisas têm progredido ultimamente e como tenho reagido a elas. É quase como abrir um presente surpresa umas três vezes por dia. Depois de um tempo você não sabe se tem medo ou ansiedade de abrir mais um...
É isso... ^_^

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O sangue sempre a salvou (parte 2)

Para os que começaram a ler agora, um rapidíssimo resumo da primeira parte deste conto: Clara, filha de fazendeiro, nascida nos idos de 1870 no Brasil, sempre fora salva, de uma forma ou de outra, pelo sangue. Literalmente. Porém dessa vez a coisa era mais grave.

Ela queria sangue. Muito sangue. Só aquela quantia usual já não seria suficiente.
Clara havia acabado de completar 16 anos de idade. Corria o ano de 1886; as velhas e fiéis escravas que tanto auxiliaram Clara em seus episódios de salvamento pelo sangue haviam sido libertas no ano anterior, devido à Lei dos Sexagenários. Apenas escravas mais novas, não tão ligadas à menina restavam agora na casa grande. Os movimentos abolicionistas cada vez mais efervescentes apenas causavam que as crises de enxaqueca e as explosões de fúria de seu pai, o rico Dom Siqueira piorassem. A libertação compulsória de antigos escravos no ano anterior o deixara ainda mais taciturno e distante da família do que antes.
Porém, alguns meses antes do aniversário de Clara, durante o rigoroso inverno, seu pai conhecera um rico fazendeiro canavieiro que compartilhava das mesmas ideias anti-abolicionistas que Dom Siqueira e se fizeram grandes amigos. Apesar de grande fazendeiro, já não era tão jovem e permanecia solteiro. Segundo ele, os negócios o haviam feito deixar o constituir família para segundo plano. No entanto, com a economia mudando tão rapidamente, pensava ele que já era hora. Dom Carvalho era seu nome e, quando veio a conhecer a doce e terna Clara, foi tomado de um encantamento selvagem pela menina-moça. Tratou logo de pedir a mão da garota ao pai. Apesar de distante da família, Dom Siqueira sabia que a menina ainda não tinha de fato se tornado moça, pois ainda não lhe vieram as regras. Mas fechou acordo mesmo assim:
— Vamos fazer assim, compadre. Quando a menina realmente se tornar moça voltamos a falar do assunto. Enquanto isso, vosmecê vai pensando no dote que pensa oferecer pela mão de minha preciosa filha.
Dona Antonia, mãe de Clara, ouviu tudo e ficou apreensiva. Foi à vila com pretexto de adquirir fazenda para um novo vestido, mas pensando em consultar-se com a velha Inácia e também com Jacira (não tão velha, mas alforriada com a ajuda da sinhá). Explicou-lhes a situação e perguntou de chofre:
— Jacira, eu sei que você trabalhou numa fazenda para os lados de São Carlos, onde Dom Carvalho tem suas terras. Sabe alguma coisa da fama desse homem com as mulheres, sejam escravas ou livres?
Jacira hesitou por um momento, mas sentindo a importância da pergunta (ainda que não o sentido dela), despejou:
— Homem violento, sinhá. Quando quer uma mulata vai lá e passa nos peitos, nova, velha, casada, prenhe... Algumas mulheres brancas, mais necessitadas, se dispuseram a deitar com ele em troca de dinheiro. Mas assim que as três ou quatro primeiras o fizeram espalharam logo um boato e ninguém mais quis. Dizem que as coitadas que passam pela experiência ficam sem poder sentar por uma semana.
Vendo a palidez da ex-patroa, Inácia já antevê:
— A sinhá tá priguntando isso por conta de sinhazinha Clara, num é memo?
Não precisou de resposta. Só o olhar de Antonia já dizia tudo.
— Mas a minina num teve as regra inda num é memo? O jeito é torcê pr'inda demorá mais um tanto... Quem sabe ele isquece ela...
No entanto, não foi bem assim. Em menos de um mês após o aniversário de 16 anos, a menarca veio. "E agora, meu esmeraldino? O sangue desta vez falhou em me salvar", pensava Clara. "Que será de nós, olhos de gato? Já não poderemos ficar juntos...". Sim, ela estava apaixonada. Sim, era correspondida e, como de praxe, era amor proibido. Mas nada podia fazer. Apenas suspirar, chegar-se à janela, olhar para a lua e esperar que o rapaz chegasse oculto pelas sombras da noite, como um romeu clandestino, até a janela de Clara para saber as más notícias.
— Pedro... — sussurrou a sinhazinha, com a voz embargada pelas lágrimas.
O moço estacou por um momento. Já sabia o que ela não estava conseguindo lhe dizer. Apenas se aproximou. Tomou-lhe as mãos, beijando-as com delicadeza e disse:
— Então devo partir, minha branca Lua. Mas estarei à espreita. Se há justiça neste mundo, ainda ficaremos juntos. E caso aquele almofadinha erga um dedo contra vosmecê, ele há de sentir a fúria dos golpes furtivos aprendidos entre os meus. Não tema, meu Copo de leite. Saiba que lhe amarei pela vida toda.
E desapareceu nas sombras da noite.

Sim, ela estava só sem seu amor (embora sempre avistasse um vulto de olhos ferinos espreitando a curta distância, onde quer que fosse). O sangue que antes a salvara, agora a desgraçara. O casamento foi marcado rapidamente. Esperariam passar apenas as festas de fim de ano, e as bodas seriam no fim de Janeiro. A festa de ano bom veio, e passou. O casamento foi adiado, pois Dom Carvalho caiu de cama com febre e alguns furúnculos. Diziam ser alguma doença no sangue (adquirida de alguma mulher da vida). "O sangue me salvou, ainda que indiretamente. Será um bom sinal?", torcia a garota. Remarcaram para maio. Faltavam quinze dias e nada acontecia. "Acho que desta vez terei de cumprir minha sina", suspirou Clara.
Estava errada. Finalmente ele veio resgatá-la. Sangue, muito sangue. Cinco dias, seis, sete, oito e nada da regra cessar. No décimo dia, quando seu noivo veio visitá-la, ficou sabendo de seu estado de saúde. Fez um esgar de nojo, que o fez esquecer completamente do encantamento selvagem que sentia por Clara e exclamou, jogando as rosas brancas que trouxera ao chão:
— Tesconjuro! Essa mulher deve estar é amaldiçoada e impura! Não posso me contaminar com isso. E levo meu dote comigo. Passar bem!
E partiu para nunca mais voltar. Alguns dizem que viu um par de olhos fantasmagóricos numa curva da estrada e por isso não pôs mais os pés naquela região. Outros dizem também que as rosas brancas transformaram-se em vermelhas assim que o canavieiro deixou a casa grande. Mas isso já é especulação e crendice.
A verdade é que Clara se recuperou bem da hemorragia (com o auxílio do famoso chouriço de Jacira) e, com o auxílio da mãe, conseguiu voltar a encontrar-se às escondidas com Pedro (porém de forma inocente, afinal eram a década de 1880!).
O ano de 1888 chegou, e o famoso dia 13 de maio veio para acabar com a escravidão no Brasil no mesmo dia em que Clara fazia 18 anos. Era também seu dia de libertação.
O pai ficou louco no mesmo dia, devido à perda de todos seus escravos. Dona Antonia assumiu o que restava dos negócios de seu marido e se tornou ainda mais próspera que ele, investindo o que podia em transformar a fazenda num vinhedo, auxiliada pelos recém-chegados imigrantes italianos. Por ter chegado já à maioridade, com a bênção da mãe, finalmente pôde unir-se a seu amado Pedro, o rapaz por quem ficou cativa desde o dia na cachoeira. E o sangue agora só veio selar o pacto dos amantes de estarem juntos por toda a vida.
Sim, o sangue a salvara. O sangue fora sua aliança. O sangue corria em suas veias da mesma forma que em seu amado cor de ébano dono dos hipnóticos olhos verdes...
E corre em todos nós: quente, vermelho, sem distinção de credo, raça ou sexo...

FIM

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O sangue sempre a salvou...

Ela queria sangue... O sangue sempre a salvou. Explico.
Ela nascera numa fazenda colonial, interior de São Paulo, filha de cafeeiro nos idos de 1870. A escravidão era coisa abominável, mas aceita como parte da vida (assim como a violência nos grandes centros hoje). Clara (esse era o nome dela) olhava com os grandes olhos castanhos, emoldurados pelos longos cílios negros, todos aqueles meninos, meninas, senhoras e senhores de cor tão lustrosa e bela, e não entendia, em sua tenra idade, por que eles recebiam como paga pelo trabalho árduo condições tão mesquinhas, enquanto ela, sem fazer nenhum esforço, comia e vestia do bom e do melhor. Na verdade, ela nunca entendeu por que se chegou a esse ponto.
Mas o que importa é que o sangue sempre a salvou. Ainda pequenina, contando com 5 anos de idade na época, caiu muito enferma, diagnosticada com profunda anemia. Inácia, a escrava mais velha, agora privilegiada com o trabalho de cozinheira, foi logo dizendo:
— Ih, sinhá, isso aí é trabaio que fizero pra suncê e vossa famía. Tem que benzê sinhazinha com galho de arruda, sal grosso e fazê muita reza braba. Má pó dexá que posso encomendá um otro trabaio pa disfazê esse quebrante...
A sinhá Antonia, mãe de Clara, atordoada com a doença súbita da filha e o medo de que o senhor seu marido, o poderoso Dom Siqueira, soubesse da existência da prática dos cultos africanos em sua senzala, apenas disse:
— Deixe estar, Inácia. Mas agradeço as rezas, que são sempre bem-vindas.
Mais tarde, a mucama Jacira veio ajeitar a menina em lençóis limpos e, sabendo do oferecimento de Inácia, comentou:
— Num ligue pra Inácia, sinhá. Ela acredita mesmo nessas coisas do candomblé. Tive algum estudo na fazenda do meu senhor anterior, e sei que essas coisas são crendices. O que era bom para a sinhazinha era comer um bom chouriço, de preferência recém-preparado. Se a sinhá quiser, posso...
Horrorizada com a sugestão de tal prato vil, Antonia exclamou:
— Minha Virgem Santa! Longe de nós consumir isso! Que Deus me perdoe, mas nunca mais dirija a palavra a mim, ouviu bem?
No entanto, foi só o quadro da menina piorar um pouquinho mais que sinhá Antonia voltou atrás em suas esconjurações.
— Dê a comida à menina hoje, mas que ninguém saiba. Nem mesmo eu, Jacira!
A dieta caiu como luva e a menina recuperou logo a saúde. Essa foi a primeira vez que o sangue a salvara.
De outra feita, quando Clara já contava com 10 anos foram ela e duas coleguinhas da escola cabular aula às margens do rio num dia muito quente de sol. Tiraram os sapatos e as meias e chapinhavam nas águas frescas com os pés nus. Já havia uns bons minutos que estavam ali quando viram o rapazote. Negro, escravo, contando com uns 15 anos já. Clara ficou hipnotizada por uns instantes pelos incomuns olhos esmeralda do rapaz. Provavelmente fruto de uma indiscrição de um sinhô europeu com alguma mucama faceira. Ficaram as três sem fala olhando para o garoto. Quando pensavam em gritar, o menino falou com voz grave, mas gentil:
— As sinhazinhas querem que Pedro apanhe umas mangas pra chupar? Tem uma mangueira bem carregada ali do outro lado... Se sinhazinhas quiserem... — e falava isto olhando apenas para a pele alva de Clara em contraste com os cabelos negros como a noite.
E antes que suas amigas pudessem esboçar resposta, nossa menina responde:
— Sim, queremos algumas mangas "de vez".
Todos se entreolharam, riram encabulados e, mais rápido que um corisco o mulatinho foi e apanhou uma camisa cheia de mangas que foram prontamente devoradas. A hora passou e todos ficaram apavorados ao perceber quão atrasados estavam. O pequeno escravo saiu correndo pela mata em direção à sua fazenda, e as meninas, mais do que depressa limparam as bocas na água do rio, colheram as meias e os sapatos e dispararam em direção à cidade, a tempo de ouvirem o último sino da escola tocar.
Clara, no entanto, foi descoberta. A mãe, Antonia, havia ido um pouco mais cedo à escola para que fossem juntas ao empório. Não deu nem tempo à menina de recuperar o fôlego, disparando:
— Muito bonito, dona Clara! Que fazia fora da escola? Cabulando aula? Depois de todo trabalho que me custou convencer seu pai a deixá-la vir à escola? Diga-me, que fazia fora da escola?
A mãe gesticulava a mão enluvada, empunhando um leque, enquanto ia ficando cada vez mais vermelha de nervosismo. Clara não sabia o que dizer; ai dela se a mãe descobrisse que além de vadiar com as amigas, ainda tivera como companheiro um jovem escravo. A aflição foi tamanha, e ainda perturbada pela corrida até ali, sentiu que a cabeça rodava e a quentura do rosto descia pelo nariz. Passou a mão e percebeu que sangrava. A mãe parou de gritar e ficou pálida no mesmo momento.
— Filha, te sentes bem? Fale comigo, Clara!
A menina sentia tudo girar e só percebeu que desmaiara ao acordar instantes depois com a cabeça no colo da mãe e a enfermeira do grupo escolar segurando um lenço molhado pressionando suas narinas e a cabeça para trás. Ainda que não pudesse esboçar grande reação, sorriu por dentro já que não precisaria dar maiores explicações. O sangue a salvara mais uma vez.
E assim foi... Toda vez que Clara se metia em pequenas encrencas, o nervosismo e a tensão provocavam que seu lindo narizinho destilasse sangue, vermelho e quente sangue. O sangue sempre a salvara...
Mas chegou a época que só esse sangue não seria suficiente... Aliás, Clara pensou que o sangue agora iria acabar com sua vida. (Continua...)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Entrevista

Seguindo os passos da amiga Vivi blogueira (http://mulherando.com.br/), e matando as saudades de escrever neste meu diário virtual (ainda que matando algum trabalho pra poder fazer isso), resolvi fazer uma entrevista comigo mesma. Vou contar aqui 10 coisas sobre mim que a maioria talvez não saiba.

1- Também nasci de olhos azuis
Na verdade, eles ficaram assim até mais ou menos os 2 anos de idade. Todos acharam q era normal, já que meu pai, meu avô paterno e um de meus tios têm olhos azuis. Mas com o tempo foram escurecendo e hoje são castanho-esverdeados (mais verdes dependendo da luz do dia).

2 - Eu gostava do PT
Mas isso era quando tinha uns 6 ou 7 anos de idade, e só porque o símbolo do partido é uma estrela (o que sempre achei fofo) ^_^

3 - Eu era fã da Rita Lee
Foi na mesma época da admiração pelo PT. É que ela fazia uns shows muito legais na TV, vestida de gatinho e outras coisas. Pra mim era tipo a Xuxa Sênior!!!

4 - Minha primeira lembrança é dos 2 anos de idade
Na verdade é só uma imagem, como uma fotografia na memória, do dia de meu aniversário quando ganhei um ursinho de pelúcia que tenho até hoje (o nome dele é Alexandre).

5 - Perdi 10 quilos sem esforço
E sem perceber! Tentei perder peso durante 2 anos com uma endocrinologista e durante esse tempo perdi exatos 2 quilos (!!!). Desanimei e desisti. Mas, quando comecei a trabalhar na Wizard ia até lá a pé todas as vezes que tinha aula. Isso durante 1 ano. No final daquele ano, ganhei uma balança no Natal. Qual não foi minha surpresa ao verificar que havia perdido 10 quilos em um ano, sem nenhum esforço, a não ser as caminhadas de 10 minutos até a escola.
Depois disso, me animei a fazer atividade física, a me cuidar mais. Fiquei mais vaidosa e a auto-estima (que era baixa) foi às alturas!!!

6 - Já fiz dança do ventre
Meio que continuação do ponto anterior, mas quando me animei a fazer mais atividade física, descobri uma escola de dança do ventre (que sempre admirei, aliás). Pratiquei essa dança maravilhosa durante 2 anos e meio e só parei porque não consegui mais conciliar os horários das aulas com minha agenda... Quem sabe um dia ainda volto!

7 - Tenho medo de borboletas
Na verdade, tenho uma relação de amor e ódio com o bicho. Por conta de uma molecagem q fizeram comigo na infância (cuja protagonista foi uma daquelas mariposas pretas/marrons horríveis e peludas) fiquei com trauma desse lepidóptero. No entanto, sempre amei acessórios, estampas desse ser colorido e misterioso. Hoje já controlo bem minha fobia, não dou mais escândalo. Além disso, tenho uma borboleta estilizada tatuada nas costas (veja tópico abaixo).

8 - Tenho uma tatuagem
Depois que comecei em minha fase de aumentar a auto-estima achei que casava bem uma tatuagem (que sempre tive vontade de fazer). E nada melhor do que representar essa mudança em minha vida com um ser que passa por uma metamorfose tremenda passando de uma lagarta feia e peluda para outro considerado uma obra prima da natureza. Por isso, fiz uma borboleta no meio da lombar (parte inferior das costas) em 2008. No início deste ano, resolvi "ampliar" minha tattoo acrescentando dois lírios nas laterais da borboleta, desta vez representando apenas o significado de meu segundo nome (Susana), que em hebraico significa "lírio". Ainda tenho vontade de fazer outras, mas vamos ver qdo vai dar certo.

9 - Como abacate salgado
É isso ae, baby! Como filha de chilenos, fui acostumada desde pequena a comer o abacate como patê ou salada. Aliás, o Brasil é o único país da América Latina que consome doce. Pra quem nunca experimentou, não faça cara feia. Já convenci muitos alunos meus a consumir o abacate salgado servindo (ou usando-os como cobaias para) o meu guacamole... E como boa menina que não torce o nariz antes de experimentar qualquer coisa, já experimentei vitamina de abacate e abacate com leite condensado, mas não tem jeito... Não desce...

10 - Já tive pavor de cachorro
Mas minha mãe, vendo que eu estava passando o medo para minha irmã (na época eu tinha uns 7 anos e minha irmã, 4) arranjou um cachorrinho para nós. Um pincher caramelo, do tamanho de um ratinho (como ter medo de uma coisinha piquitica daquela?), que logo fui batizando de Benji (lembra? o da Sessão da Tarde?). Hoje, amo cachorro. Aliás, amo praticamente todos os animais e odeio ver gente maltratando os coitados. Jogaria com prazer esses cretinos na lata do lixo, a começar por aquela lady que tacou a coitadinha da gatinha simpática e amigável no latão... Coisa feia! Deus tá vendo, viu?

É isso, galera. Logo pretendo postar mais coisas, porém ainda estou meio sem tempo.
Mas acho que já deu pra matar saudades, né?
Fui!!!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Live and Let Die


"Não julgo que tenha alcançado a perfeição, mas uma coisa faço, esquecendo-me daquilo que fica para trás e avançando para as coisas que estão adiante de mim..." (apóstolo Paulo em sua carta aos Filipenses)

Se tem uma coisa que é muito difícil das pessoas fazerem (e eu não sou exceção) é abrir mão, deixar o passado pra trás.
Mas o fato é que, uma vez que você se desvencilha daquilo que não te faz bem, ou das coisas que não cabem mais em sua vida, das pessoas que não têm mais lugar em seu coração (ou que te despejaram do coração delas), a limpeza te proporciona um bem estar enorme!!!
Digo isso porque eu tenho feito isso há pouco tempo, limpando aqui, arrancando as cascas velhas dali, passando tinta nova, jogando fora cacarecos e comprando mobília novinha. Mas também observo aqueles que estão ao meu redor, aqueles com quem me importo, e sofro com eles por não poderem muitas vezes se desvencilhar dos esqueletos no armário. Gostaria de ajudar essas pessoas a carregar suas correntes, mas isso é algo que cabe a cada um. É cada um que deve decidir quando e como usar uma marreta para finalmente desvencilhar-se desse estorvo.
Não sou perfeita e ainda tenho muito que reformar na minha vida, mas pelo menos já comecei. Algo que busquei desesperadamente por muito tempo, o amor, é algo que já não ocupa minha lista de prioridades. Se vier, ótimo. Enquanto isso vou sendo feliz do mesmo jeito, curtindo meus amigos, minha vida, meus textos, meu processo de remodelação.
Uma vez me disseram que só se ama uma vez, e que quando nos interessamos por outra pessoa na verdade estamos apenas projetando a imagem do amado ou amada original sobre esse novo alguém. Não acredito muito nessa teoria. Sou bem mais adepta da ideia de que o amor é como uma planta: duas pessoas plantam e tentam cuidar dela, mas se houver alguma negligência a planta seca e morre, deixando as marcas na terra das raízes que um dia estiveram ali arraigadas.
Não sei o que é certo. Talvez não exista certo nessa área. Vai depender da vida e da experiência de cada um.
Assim como acho que não há regra para se reformar a própria vida. De repente, não há momento de reformulação na vida de todos. Só de alguns. Na minha isso está ocorrendo, e ocorre em ciclos, na verdade.
Só sei que pra mim está funcionando...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Crash 'n' Burn


Quem você pensa que é pra partir meu coração?
Burn in hell!
E você, que parece uma banca de feira,
Oferecendo seus produtos a quem passa?
Burn in hell!
Seus olhos me olham e me dizem
Que não posso ser quem sou
Burn in hell!

Para de me encarar
Para de me acusar
Para de me escarnecer
Se disser que o poder está em mim
Cabe a mim apenas dizer se isso é verdade
Se não disser que estou interessada
Cabe a mim apenas dizer se isso é mentira
Se o meu ar blasé te confunde
Não pense que não me importo
Palavras ferem mais que ações
E uma pequena ação fala mais que mil palavras

Você que acha que ajuda o outro
Mas que pisa por cima de mim pra isso
Burn in hell!
Ainda que parece estar tudo bem
Me ignorar
Burn in hell!
A verdade é que a brasa queima em minha pele
Mas a dor passa e a ferida cicatriza
E o fogo queima apenas a lembrança
Que poderia ter sido doce
E sopro suas cinzas pra longe

Quem é você pensa que é?
Acho que você não pensa
Porque você, pra mim, não existe...

sábado, 17 de julho de 2010

Depende de você

Abriu os olhos e tudo que viu foi o nada. Escuridão total. Tentou mais uma vez, pensando que talvez não tivesse realmente aberto os olhos. Só fez melhorar de leve a escuridão.
Tentou se levantar, mas tudo doía. Ficou lá no chão mais um pouco. Respirou fundo e se sentou. Ainda não conseguia ver nada. Só sentia. E estava frio, muito frio. E úmido. E escuro, muito escuro.
Não sabia por quê estava lá, nem como chegara lá, nem se um passado havia acontecido. Só conseguia sentir o agora, embora soubesse que já estivera lá antes. O instinto lhe disse para apalpar o chão ao seu redor.
Duro e frio e áspero. Achou um pedaço de qualquer coisa comestível e uma poça de um líquido adequado para se beber naquelas condições. Empurrou aquilo para dentro da boca, embora sem fome e sem sede. Sabia que já havia tentado sair de lá antes, mas não lembrava se conseguira de fato. Esperou durante horas que algo acontecesse. Cutucou os ouvidos para ver se estavam funcionando. E ouviu alguns ruídos. Gotas leves, gotas pesadas, um tamborilar suave que aumentou à medida que descobria a origem dos sons: suas lágrimas caindo no chão, sangue (sim, uma ferida aberta no peito destilava o líquido da vida) e seu próprio coração tamborilando tristonho e assustado e surpreso. E doía.
Deitou-se novamente, e fechou os olhos bem apertados, abraçando os próprios joelhos, tentando encontrar algum conforto e desejando que tudo acabasse ali, que algo fizesse com que tudo acabasse ali, ou que alguém viesse para acabar com tudo. E ouviu um som.
Dois sons: um áspero e um suave. O áspero lhe lançava acusações, injúrias e zombaria. "Inútil", dizia o som áspero, "sofre aí, ninguém está aqui, e a culpa é sua". Lhe passou pela mente que já ouvira tudo aquilo antes. E então veio o som suave, porém firme: "Você está aqui porque você permitiu que alguém te jogasse aqui. Mas depende só de você sair... Então, saia!!". E com os dois sons entremeados, rondando sua cabeça como dois abutres se digladiando pela presa, rilhou os dentes, arregalou os olhos e deu um grito ao erguer o corpo dolorido do chão. Percebeu que ao ficar em pé, tremendo dos pés à cabeça, tinha um pedaço de pano nas mãos. Reparou que a escuridão era mais tênue à sua frente.
Gemendo a cada movimento, pressionou aquele pano contra a ferida no peito. E então deu um passo. Arrastando o outro pé, deu um segundo. Parou. Respirou fundo, ofegando, achando que não suportaria fazer outro movimento sem sentir dores excruciantes. Mas o som antes suave, agora menos suave, mas ainda firme, circulava em sua mente: "Depende de você. Saia!!". Cambaleante, se jogou à frente. Notou que o chão conforme avançava se tornava menos áspero, menos íngreme. O chão pedia para ser trilhado, pisado. Aos poucos as forças foram invadindo seus membros, uma força que vinha das dores, da ferida exposta que ainda doía, mas só lhe fazia lembrar do que queria deixar lá atrás, e avançava. "Que força é esta? Isso sou eu?".
Agora já não andava, percebeu que corria. Mas o cansaço não lhe vinha. A escuridão estava lá atrás, mas não olhou pra lá, só olhava agora pra frente.
E ainda corre, já consegue ver uma luz, já consegue ver a própria luz emanando do que antes era uma ferida no peito, iluminando o caminho à frente. Não sabe o que tem lá no fim e nem quer saber. A satisfação de se ver cada vez mais longe do começo é suficiente. E o que vier agora, é lucro.
E finalmente, sorri.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Extra Ordinário


Quando eu estava no colegial, muitas vezes ia até uma esquina perto da escola para esperar meu pai, que vinha me buscar ao sair do trabalho para irmos almoçar. Então, naquela época, adquiri o hábito de observar o movimento do mundo ao meu redor. Tanto que, certo dia, contei de uma forma até bem casual algo que havia visto no dia anterior para alguém mais velho, e que tinha um bom nível cultural (não estou certa se foi um professor...). Mas me surpreendeu o que essa pessoa disse: "você deveria começar a escrever; isso parece até uma crônica!".
Naquela hora, eu sorri e, claro, depois fiquei pensando a respeito (não sem antes pesquisar mais o que era uma crônica); porém, nada mais fiz na época, a não ser continuar observando tudo.
Esse hábito progrediu com o passar dos anos e sempre foi algo meu, particular, minha forma de saborear o ato de viver.
O motivo pelo qual estou escrevendo isto agora foi inspirado por uma conversa muito bacana que tive há alguns dias com um amigo virtual (virtual, mas "de fé"!). Estávamos falando sobre coisas filosóficas, maneiras de ver o mundo, religião, sobre ser coerente com as crenças pessoais. Daí, soltei uma frase na hora que ficou martelando na minha cabeça até agora: as pessoas buscam o extraordinário em coisas fantásticas, mas não percebem que o extraordinário está debaixo do nariz delas disfarçado de dia-a-dia. Para mim o extraordinário está nas pequenas coisas, basta parar e olhar para o mundo ao seu redor.
Exemplo: há cerca de dois anos comecei a dar o miolo do pão (que não como), cujo final seria um desperdício jogado no lixo, aos pardais. A princípio foi só por uma consciência "ecológica", mas depois de algum tempo também comecei a jogar-lhes as raspas de arroz que sobravam no fundo da panela. E, mais uma vez, passei a observar o que acontecia.
O fato é que agora, eles me conhecem e eu conheço alguns deles. Os passarinhos nem têm mais medo de nós aqui em casa. Tanto que tem um casalzinho que sempre pousa na traseira do ar condicionado que sai para o quintal e me observam dali, quando estou à mesa comendo alguma coisa. Gosto de chamá-los de Gordinho e Manquinha. O primeiro é óbvio o motivo do nome, mas a segunda é uma fêmea cuja perninha direita é levemente defeituosa, mas não a impede de vir ciscar no quintal nem de voar tão bonitinho quanto todos os pardais. Eles se sentam no ar condicionado e esperam até que eu termine de comer, para compartilhar minhas sobras com eles. Às vezes, até converso com eles, e eles retribuem me olhando e virando as cabecinhas como se estivessem tentando me entender.
Tá, pode parecer bobo e infantil, mas a alegria que me dá de vê-los não só nesses momentos, mas em outras situações engraçadíssimas que já presenciei, é o tipo de alegria pura, simples, sem grandes elaborações, alegria infantil e boba mesmo.
Muitas vezes, o ser humano busca grandes "orgasmos" na vida diária, através de ser o maioral no trabalho, nos relacionamentos, na família, e até na religião (triste nessa aqui, hein?). Mas fazendo assim perdem a ternura do "selinho", do abraço que a vida está sempre disposta a nos dar.
Por isso, não despreze os pequenos prazeres. Se gosta de afundar a mão no saco de grãos de feijão, faça! Um cheiro de chuva, leite em pó com chocolate em pó e um pinguinho de água, andar descalço ou rolar na grama, observar a natureza, rir até chorar por nada com um amigo de infância — todas essas são pequenas alegrias que a vida te oferece, disfarçadas de cotidiano!
Não reclame que a vida é triste sem olhar de fato dentro dos olhos dela... Você vai se surpreender!

domingo, 11 de julho de 2010

Beleza Interior


Era bela, mas não se via assim
Como poderia?
Se tudo o que ela enxergava
Eram as pessoas ao seu redor?
E o espelho se embaçava
Pela calidez de sua alma

Era bela, mas não se via assim
Porque ela aprendeu
Que a beleza vinha de dentro
E que amar os outros era primordial
E ela dava as costas para seu reflexo
Para poder olhar seus queridos

Era bela, mas não se via assim
Até que um dia, sem olhar para si
Olhou demais para alguém
Alguém que não merecia ser olhado
E teve seu puro coração quebrado
E punhados de areia em seus olhos caíram

Era bela, e começou a se ver assim
Primeiro os olhos, depois a boca
Mas ainda se dividia
Entre ser boazinha e ser a louca
Mas os dias passavam
E as noites pesavam

Era bela, e já quase se via assim
Mas alguém lhe disse belas palavras
E ela acreditou
Que podia voltar ao que era
E apenas dar amor
Mas não pensar em si

Ela é bela, e finalmente se vê assim
Ainda olha os outros
Mas não mais cega para si
Entregue agora à sua loucura
Feliz e dona de si
Dona de seu mundo e de seu sorriso

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Nove meses

Estou grávida!!
Mas não se assustem amigas e amigos (principalmente! hehe)...
Hoje foi um dia muito bom, pude descansar e fazer coisas que adoro! E uma das coisas que gosto é pensar na vida e ler coisas diferentes (o que acaba sendo um círculo vicioso, porque ler me faz pensar mais, e quando penso me dá mais vontade de procurar o que ler).
E voltando pra casa, sorri sozinha, pensando em tudo o que tem acontecido ultimamente. Alguns turbilhões têm passado ao meu redor, mas nada que me abale. Na verdade, me sinto mais forte do que nunca.
A questão é que, nos últimos tempos, tenho percebido algumas mudanças dentro de mim. Tá que sou uma metamorfose ambulante, como diria Raulzito, mas dessa vez é ainda mais diferente.
Pra quem está caindo aqui de paraquedas, explico: sou a falsa extrovertida. Aprendi a me relacionar com as pessoas, ainda que isso não seja uma característica inata em mim. Porém, sou um trabalho em progressão. O fato é que desde a infância sempre tive baixa auto-estima.
Mas há alguns anos isso começou a mudar, e vem mudando progressivamente, às vezes estacionando, às vezes avançando, mas sempre evoluindo. E o marco representativo do início dessa mudança gravei em meu corpo, na forma de uma tatuagem de borboleta (símbolo da metamorfose e evolução).
No entanto, hoje durante minha meditação ao longo do caminho de volta pra casa me peguei sorrindo porque me dei conta de que estou, de verdade, gerando outra pessoa dentro de mim. Por momentos, não me reconheço, e sei que a mudança é inevitável (e nem é algo que queira evitar). E essa nova pessoa está crescendo, quietinha, no meu interior, como um bebê tenro e cheio de vontade de ver o mundo. Mudei e estou mudando alguns conceitos; velhas e novas crenças estão disputando território; é como mudar de casa: joga-se fora o que se pensava ser útil ou importante, redecorando e arejando cômodos que não se tinha na casa anterior.
Não sei que cara terá essa nova pessoa, que efeitos ela causará na vida dos que a cercam (e não estou preocupada com isso na verdade). Até porque ainda não inventaram ultrassom para esse tipo de gravidez.
A única coisa que sei é a certeza de uma grávida que deseja seu bebê: estou ansiosa para o nascimento dessa nova pessoa, sabendo que vou amá-la muito!!!
E para os críticos de plantão, que neste momento sacodem suas cabecinhas (se é que chegaram até o fim deste texto) e estalam suas línguas num "tsc-tsc", aqui vai meu sincero: VÃO PLANTAR BATATA!!! (ou vulgo F**A-SE).

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Liberdade Condicional

Eu observo
Observo os pássaros, as pessoas
Observo minha imagem no espelho
Na maior parte do tempo parecem livres
Eu me sinto livre
Ainda mais agora que a dor não me pesa
Ela apenas vaga na lembrança
Talvez seja pelo analgésico de se viver o hoje

Mas também observo
E vejo que não existe a liberdade total
São muitas as amarras que nos limitam
Quero ser livre pra amar sem restrições
E então vêm as regras morais
Livre pra ir e vir, decidir ou deixar rolar
Mas as amarras dos compromissos sociais e financeiros me seguram

Falar o que quiser, expressar como quiser
Porém até a liberdade dos outros
São grilhões que me cingem
Já diria Rousseau que livres nascemos
E, no entanto, presos vivemos
Porém ganhei asas de liberdade
Tênues e frágeis como as de borboleta
Ao menos para meus pensamentos
Ainda posso ser livre
Ainda posso me expressar
Nem que seja através das lágrimas e sorrisos cibernéticos
Na minha loucura virtual
E aproveitar minha liberdade condicional...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Carta de un Soldado

Este texto eu escrevi e criei uma apresentação PowerPoint há alguns anos atrás. Depois, a postei no Youtube (como vcs podem ver no vídeo ao final do texto aqui). Porém, algumas pessoas me pedem para traduzir o texto para espanhol, então para não ter meu texto sumariamente copiado (tá, isto não necessariamente vai impedir as pessoas de copiar) e ter pelo menos um pouquinho dos meus direitos de criação garantidos, decidi postar a tradução aqui. Se vc quiser ver o vídeo em português, basta clicar no link ao final.

Hoy ha sido más un dia en esta guerra interminable...
Hoy vi a algunos compañeros siendo muertos,
Otros, heridos, fueron a recibir los cuidados de nuestro excelente doctor.
Luego estarán en las líneas de encuentro nuevamente.
Porque el enemigo es feroz... Y sus hileras, muchas veces, sobrepasan las nuestras en número!
Pero no debemos desanimarnos, porque nuestro General es mucho mejor que el de ellos.
Y aunque parezcamos estar perdiendo, sabemos que saldremos victoriosos en cada batalla gracias a Su comando.
Pero lo que entristece a mi corazón de soldado son las deserciones y no apenas para el lado enemigo,
Sino aquellos que dejan sus respectivos pelotones en búsqueda de otros que parezccan más fuertes...
Aunque nuestro pelotón permanezca firme, cada vez que hay rebaja en nuestros números, nos ponemos desahuciados pues tenemos que cubrir la ausencia de aquellos que nos dejaron.
Sin embargo, aún peor son los que van de pelotón a pelotón sin fijar posición en ninguno.
Esos soldados son, muchas veces, más perjudiciales en la batalla que los enemigos...
Unos llegaron aún a dividir y extinguir pelotones que estaban en la frente de batalla!
Lo que ellos no recuerdan es que tenemos el mismo General, y sus órdenes deben ser obedecidas sin importar nuestra posición en el campo de batalla.
Lo importante es mantenernos unidos, sirviendo como soldados dedicados y fieles en el pelotón donde el Gran General nos designe.
Termino esta carta por aquí, esperando que Ud., soldado, piense en lo siguiente:
Sirve de manera honrada y fiel en el destacamento donde Ud. está, siempre agradeciendo y pidiendo instrucciones al Gran General...
... hasta el día de la Gran Victoria!
"...Todo reino dividido contra sí mismo quedará asolado, y toda ciudad o familia dividida contra sí misma no se mantendrá en pie. (...) El que no está de mi parte, está contra mí; y el que conmigo no recoge, esparce". (Mateo 12:25,30)

Vídeo no YouTube, clique aqui

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Teu Sonho

Posso ser tua musa, tua inspiração
Sou teu anjo ou tua assombração
Ora sou sol, ora sou lua
Dia nublado, noite escaldante
Mente aberta, alma nua
Te dou amor, te causo dor
Fogo, terra, água e ar
Um porto seguro, ou teu desesperar

Posso estar ao teu lado ou longe de ti
Mas minha sombra sempre aí
De dia o alívio, de noite o delírio
Um instante de prazer, um momento de sofrer
Machuco como rosa, inebrio como lírio
Te embriago, te recupero
Café, almoço e jantar
Te condeno, mas vou te salvar

Mas assim como sonho diáfano
Ou desejo profano
Estás sempre prestes a me ter
E então me desvaneço

Porém isto é apenas um jogo
Uma brincadeira de esconder
Eu estou aqui, divertindo-me
Um sorriso maroto nos lábios
E muitas intenções na mente
Sejam boas, ou nem tanto
Sou teu prêmio final
Venha me encontrar!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Duas caras


É fato. Todo mundo tem dois lados dentro de si, o bom e o mau.
Eu não sou diferente.
Mas acho que sou a única maluca que dá nome a eles!
Pois é... Meu nome de batismo é Patrícia Susana, então gosto de dizer que meu lado negro é a Susana e meu lado bonzinho, a Patty.
Às vezes, as duas convivem bem, em equilíbrio. O problema é quando só uma das duas prevalece...
O que acontece é o seguinte. Meu lado Patty é bonzinho demais, acredita nas pessoas, se doa de corpo e alma, é boa gente, leva tudo na boa; Patty é sincera ao extremo, romântica e ingênua, otimista, sonhadora, meu lado infantil (no bom sentido). Mas esse lado é bobo, careta e carente.
Já o lado Susana é teimoso, agressivo (mas não violento), irônico com tendências ácidas, egoísta, vingativa. De vez em quando, me arrasta pro pessimismo, não acredita em nada nem em ninguém. Entretanto ela é sexy, enigmática, independente e pé no chão.
Então vocês podem perguntar: tá, e daí?
A questão é a batalha campal que cada uma das minhas metades trava todos os dias, desde os primeiros segundos quando me levanto da cama, até a hora de fechar os olhos novamente. Acreditem, se fosse representar com uma cena de filme seria a batalha final do Senhor dos Anéis.
Agora, o engraçado, é que às vezes quero que o lado Susana se manifeste mais (quando preciso dizer certas verdades, tomar certas iniciativas — se é que me entendem —, dar de ombros e um sorriso irônico quando alguém me der as costas, ficar realmente de boa quando estou "all by myself"). Nos dias de TPM, preferiria que só a Patty desse as caras. Mas cada uma das minhas metades tem vontade própria e se manifesta em seu próprio "timing".
Neste exato momento, enquanto escrevo, muita coisa passa pela minha cabeça, entre racionais e emocionais, entre querer e não querer. As duas partes de mim discutem como peixeiros numa feira livre, mas chegam a um consenso: eu não seria quem sou com apenas uma delas.
Então, esta sou eu: às vezes Patty Susana, e outras, Susana Patty. ^_^

sábado, 5 de junho de 2010

A resposta que eu quero

Que saudades de você!
Saudades dos passeios que nunca fizemos,
Das risadas que nunca demos.
Sinto falta dos nossos beijos e abraços nunca dados,
Do amor que não fizemos.
É estranho sentir um vazio
Por algo que nunca foi cheio.
E a saudade só cresce...
Lembro de quando não acariciei teu rosto cansado,
E beijei teus lábios gentis,
De como não enrosquei meus dedos em teus cabelos
E te fiz adormecer recostado em meu corpo.
Penso o tempo todo nas noites que não aconteceram,
E nas manhãs inexistentes em que apenas acordávamos
E, sorrindo, olhávamos um para os olhos do outro,
Apenas absorvendo cada segundo que não passou.
E a saudade só cresce...

Não te conheço, talvez te conheça.
Não sei quem você é ou será ou foi
Nem sei se receberá minhas palavras
Mas se chegasse a alcançá-las,
Apenas me responda uma pergunta simples:
Você tem saudades de mim?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Concha

O silêncio é engraçado
Ele pode ser um santo remédio,
E também um veneno mortal.
Tão fácil de ser quebrado,
mas às vezes requer uma coragem de titã para vencê-lo.
O silêncio pode ser mais eloquente que mil palavras
E continuar sendo enigmático.
Em uma hora, tudo o que você precisa,
Em outra, o que mais odeia.
Uma arma ou uma defesa?
Você escolhe...
No momento, escolho o silêncio,
Até que alguém escolha quebrá-lo,
E me chame...

domingo, 30 de maio de 2010

Esquecimento


Dia normal, nem calor nem frio, algumas nuvens no céu lançam sombras estranhas, que fogem apressadas pela rua. A garota anda cabisbaixa, chutando pedregulhos da calçada, volta da escola sem lembrar como chegou lá, nem como saiu. A verdade é que nada mais lhe chama a atenção, e a mente anda muito cheia de pensamentos lúgubres e vozes funestas; o coração também às voltas com ervas daninhas e espinheiros. A verdade é que ninguém a entende.
Alguém passa por ela, esbarra nos ombros da pequena, lhe lança alguns impropérios. Ela não liga; ela, realmente, nem ouve. E continua sua caminhada para algo que ela lembra ser remotamente sua casa. Vai ao encontro do conforto, embora não se sinta digna desse conforto. Os fantasmas e monstros dentro de si não acham que ela mereça.
Numa esquina então, a menina para. Algo finalmente lhe chama a atenção. Casa velha, cinzenta e marrom, árvores secas, jardim decadente. Nunca notara aquela construção na rua. Se bem que não estava notando nada naqueles últimos tempos. Parece ver um movimento no pátio traseiro da casa. Seus companheiros mentais se dividem entre atender à curiosidade e sair correndo para o conforto não-merecido.
Ela empurra o portão sem muita dificuldade, e este range ao peso da ferrugem e do tempo. Na varanda de entrada, as madeiras rangem sob os sapatos negros, quase que cantando um mantra. Ela para na porta, o debate entre suas forças internas se intensifica. Mas a curiosidade sempre a venceu, sempre foi mais forte do que qualquer demônio ou anjo que a garota tivesse dentro de si.
A porta abriu-se suavemente, como que convidando a pequena intrusa a desvendar seus mistérios. Desta vez os passos são mais cautelosos, e ela procura quase que flutuar sobre o piso frágil da casa em decomposição. Algo palpita junto com seu coração; algo que a espera e espreita no pátio traseiro. Pela janela da cozinha uma brisa, mescla de frio mortal e calidez de hálito balança o que resta das antigas cortinas de filó. A tela de arame posta para impedir os insetos de entrarem, agora só impede que se possa ver claramente a parte externa.
Quando a garota pousa a mão branca e trêmula na maçaneta da última barreira entre ela e o mistério a ser descoberto, percebe que não há mais volta. O coração para, a mente congela; apenas a mão trabalha, virando a pequena bola de metal e puxando-a de encontro a si.
E ele está lá, no meio do que um dia foi um quintal agradável e sombreado. Ele quase se confunde entre as ervas que teimosamente cresceram por entre as rachaduras do piso de terracota. Os olhos amarelos e emaciados, a pele rachada e cinzenta cobre feições que ainda revelam parte da beleza que tivera outrora, os negros cabelos em desalinho de um jovem rapaz interrompido. As vozes na mente da menina clamam em uníssono: "zumbi". Mas nada faz com que ela se mova do lugar. Os segundos parada no topo dos três degraus que conduzem ao pátio se convertem em horas. Nada se move, nem mesmo a brisa. Os dois estranhos apenas se encaram, sem expressão.
A menina desce, quase trôpega, os blocos de pedra que fazem os degraus. O zumbi também caminha, desajeitado, parando a poucos passos da garota.
Os contendores se observam. De um lado o instinto quase animal de consumir cérebro humano, paralizado por sentimentos remotos de ternura ainda presentes em seu coração pútrido, causados pela suavidade da garota. Do outro, o terror e o pânico cedem à curiosidade e a um pensamento quase mágico. Ali parece estar a resposta à dor da garota. A respiração quente, perfumada e feminina se mistura ao hálito fétido e gélido do jovem morto-vivo.
Com os dedos ossudos e arroxeados, ele toca no rosto suave e quente da garota. Quase pode sentir o sangue correndo em suas veias novamente. Em outros tempos, teria saboreado os lábios macios num beijo doce. Ela cerrou os olhos enquanto os seres dentro de si se desesperavam como baratas diante da luz. Não queria fugir. Essa era sua perdição, mas também a sua salvação.
Ele foi suave, o mais suave que um zumbi pode ser. Ao ver destruídos e extintos os negrores de sua mente e coração à medida que o jovem zumbi a consumia, ela sorriu um último sorriso, sentindo a luz encher-lhe finalmente a alma... E a garota pôde então descansar no esquecimento...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Mapa


Perdida, embora esteja aqui
Confusa, mas com os pensamentos nítidos
No escuro com todas as luzes acesas
Eu grito, mas nenhum som sai dos meus lábios
E ninguém ouve
Pulo, faço gestos, mas meu corpo permanece imóvel
E ninguém me vê
Meu pedido de socorro percorre o cyberespaço,
o cosmos, o vazio, o ar noturno
Mas se perde, como a brisa dissipa a bruma
Não quero um super-homem, um semi-deus,
Nem quero a conquista de Atlântida, a glória dos imortais
Quero ser salva, salvando ao mesmo tempo
Preencher a solidão, estender a mão
Ser a razão de alguém, desfrutar e prover
Os pequenos prazeres que carregam grandes doses de felicidade

Por enquanto, fico aqui, esperando,
Bem no meio do X

domingo, 23 de maio de 2010

Sunday boring Sunday



Quando foi que
O domingo de sol:
Brincar com os amigos,
Almoço em família,
Preguiça gostosa...
Virou uma enorme bola de demolição
Feita de tédio e solidão?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Void

Eu tô aqui, e você?
Eu nem sempre sei quem sou,
E muito menos sei quem você é
Quem somos nós? Pra onde vamos?
Não tenho a menor idéia porque perdi o mapa
Perdi a mim mesma
Não te perdi, porque nunca te achei
Mas venha, me encontre
E, se for necessário, rasgue meu coração
Mas leve embora a dor do vazio
Do vazio de sentimento
Eu prometo valer a pena
Embora, a pena do que vale, pode vir numa promessa
Então, te tiro o fôlego, te roubo um beijo,
Te arranco um pedaço da alma,
Em troca da minha
E nos embriagamos com o álcool das idéias
Até cair no esquecimento...
Esqueci...Quem é você?

domingo, 16 de maio de 2010

Seca

Quando olho ao meu redor
Tudo o que vejo é desolação
A casa vazia, abandonada
Na sala, as fotos puídas, molduras gastas
Imagens daqueles que por ali passaram
Mas que já a deixaram..
Pelos quartos vazios, corredores,
Ecos dos risos, dos suspiros, das boas conversas
Logo se esvaem quando as lágrimas se acumulam na garganta
Porém sem rolar pelas faces:
A seca que assola o campo, se apresenta também nos olhos.

E no pátio, entre os escombros de dias de sol,
Nas ruínas da primavera,
Tudo o que resta
É a sombra seca e sem folhas
Do que um dia foi árvore frondosa
Pronta a abraçar, dar alívio do calor escaldante,
Saciar o físico e o coração
Com a doçura de seus frutos.
Aqui a esperança e o sonho
Deram seu último suspiro
Junto com o último animal no pasto

Se algum dia alguém fizer voltar a chover
Pode até ser que se recupere
O meu coração
Da seca que agora o abate...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Um pouco de sol


Esses últimos tempos tenho estado meio melancólica, revoltada, e muitos sentimentos um tanto quanto negativos. Como já dito anteriormente, é porque gosto de escrever aqui o que nem sempre dá pra expressar oralmente. Ou, como chegamos à conclusão com uma amiga, quando não se tem dinheiro pra pagar um psicólogo, cria-se um blog!!
Mas andei pensando, lendo, conversando e pode ser que um artigo que li a respeito de meu signo chinês tenha uma certa razão (sim, eu leio artigos sobre horóscopo de vez em quando, me processe!!! Hehehe...). A propósito, sou Dragão de fogo. Lá dizia que os dragões, embora fiéis e dedicados aos amigos podem nem sempre demonstrar seu carinho de forma que eles entendam, podendo até parecer frios e distantes em certas ocasiões.
Então, pra compensar meus queridos amigos, queria fazer um afago, dar um abraço apertado e um beijo cálido em cada um de vocês através de minhas palavras. Claro que amigos verdadeiros, do peito mesmo, posso contar nos dedos das mãos, entre os feitos pela internet e os que estão mais próximos fisicamente de mim.
No entanto, acredito que o carinho e a compreensão independem de corpo físico, e têm muito mais a ver com mente e espírito.
Por isso e muito mais, sintam-se todos acalentados e parte importante de meu coração!
Segue agora a letra de uma música que esteve rondando minha cabeça e que expresse um pouquinho como eu me sinto em relação a cada um de vocês!

APENAS MAIS UMA DE AMOR

(Lulu Santos)

Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido
Como uma ideia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de acontecer

Eu acho isso tão bonito
de ser abstrato baby
A beleza é mesmo tão fulgaz
É uma ideia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de acontecer

Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então,
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer
E se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
E eu vou sobreviver
O que eu ganho, e o que eu perco
Ninguém precisa saber

domingo, 9 de maio de 2010

El fantasma

Como ánima viniste
En espíritu te alzaste
Y con un suspiro me llamaste

No te había buscado
No me había imaginado
Pero en un instante determinado
Mi corazón ya estaba condenado

Yo te hablaba, y me respondías
A veces te callabas
Y al aire tiraba mis palabras
(Y pienso que te reías)

Después venías y me decías
Que me amabas y que creías
Por siempre estaríamos juntos
Y entonces más una vez desvanecías

Pero en este punto ya estaba embrujada
Y aunque ya desahuciada
Podía ver, como en espejismo
Una punta de esperanza
Muy lejos, en lontananza

Y entonces como una adicta
Te buscaba con regularidad, afligida
Como si de eso dependiese mi vida
Aunque en la oscuridad, después,
Quedaba apenas la herida

Y aunque diáfano y temporal
Eras siempre dulce, tierno,
Y por eso, en este eterno invierno
Mi alma y corazón así corroídos
Necesitan liberarse, y recomponerse

Trato entonces de exorcizarte
Y lucho por olvidarte
Para que mi vida sea nuevamente arte
Y no más sea asombrada
Por tu tierna alma penada...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Pretensão


Eu não ia escrever isto, mas às vezes alguns pensamentos cruzam a nossa mente e é difícil ignorá-los. Eu tinha em mente escrever uma poesia. Na verdade, ela ainda será escrita, só que está em processo de "fermentação".

Enquanto isso, senti a necessidade de, de alguma forma, desabafar através de palavras que não as minhas... Acredito que todos os que pensam diferente do mundo lá fora, que apesar das desilusões "desce ao fundo do poço, lava o rosto e volta sorrindo" (palavras do meu amigo Ivan Almeida - citei a fonte Ivan!!! Hehehe...), todos os que uma hora ou outra se sentem alienígenas neste mundo poderiam identificar-se com o trecho de um livro que vou postar abaixo.

Eu me sinto assim muitas vezes, e esta é uma ocasião em que estou assim: solitária, mas ainda com um sentido de grandeza no fundo do ser.

Talvez isso soe como pretensão de minha parte. Pode ser. Não estou aqui pra me justificar ou pra pedir desculpas. Apenas procuro me exorcisar, como sempre.

Vou parar por aqui. O próprio texto do livro é auto-explicativo. Trata-se de um trecho de "O Sobrinho do Mago", das Crônicas de Nárnia. Diálogo entre o sobrinho em si, Digory, e seu tio André.


- ... Eu era uma das poucas pessoas que minha madrinha gostava de ver quando adoeceu gravemente. Ela não se dava com as pessoas comuns, ignorantes, entende? Também eu sou assim. Mas ambos nos interessávamos pelas mesmas coisas. Poucos dias antes de morrer, ela me disse para ir buscar em sua casa uma pequena caixa, que ela guardava numa velha escrivaninha. No momento em que toquei na caixa já senti, pelo formigamento dos meus dedos, que tinha nas mãos um vasto segredo. Deu-me a caixa e tive de fazer-lhe uma promessa: logo que ela morresse, tinha de queimar tudo, sem abrir, depois de certas cerimônias. Não cumpri minha promessa.

- Não diga! Foi muito feio de sua parte! - exclamou Digory.

- Feio? - perguntou tio André, muito admirado. - Ah, estou entendendo. Está querendo dizer que os meninos devem cumprir suas promessas. Muito bem, estou gostando de ver. Mas também deve admitir que essas regras morais, embora excelentes para as crianças... e para a criadagem... (...) e para as pessoas em geral... não podem ser aplicadas aos grandes estudiosos, aos grandes sábios, aos grandes pensadores. Não, Digory! Homens como eu, conhecedores da sabedoria oculta, não estão amarrados a essas regras vulgares... do mesmo modo como estamos distanciados dos prazeres vulgares. Nosso destino, meu filho, é solitário, mas está acima de tudo.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Quando ela se foi...


Era verão...
E junto com tantas outras crianças, ele nasceu.
Veio ao mundo puro, inocente, em branco como folha de papel pronto a ser desenvolvido, desabrochado.
Aprendeu com as experiências, amadureceu; foi ganhando mais cores, encorpando e ficando mais robusto e radiante conforme crescia.
Atingiu o ápice de seu brilho já na juventude, principalmente quando a conheceu.
Ela: brilhante e sorridente, com seus cabelos ao vento. O tomou pela mão e lá se foram os dois a rodopiar, a brincar e rir de nada e de tudo.
E assim unidos, não viram a escuridão chegar e o abismo se aproximar... Então caíram, em silêncio, não ousando prever o que aconteceria ao atingirem o fundo; apenas abraçados, aproveitando juntos os segundos que os separavam do inevitável.
Mas o terrível momento veio...
Ele desejou ter morrido quando finalmente conseguiu abrir os olhos. Ela se fora...
A dor que sentiu era insuportável, pior do que ter partido junto com sua amada.

Agora ele anda por aí, sem Esperança, morrendo aos poucos, o coração gangrenando.
E assim espero o meu Sonho moribundo ir ao encontro da Esperança que já partiu...

sábado, 1 de maio de 2010

Onomatopéia

Clic
Vush
Crack
Splash
Ooopss
Catapimba
Aimeujisuis
Boom Sock Pow
Manhêêêê
Cráááááá
Raaaassg
Rrripp
Auch
Hum
Ah!


É assim que soa
Toda vez que se faz
Uma grande e boa faxina,
Na alma e no coração
Faz muito barulho
E dói...



(mas vale muito a pena!!!)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A Torre


Lugar de observação
De onde o observador contempla o mundo
Sente-se maior, mais altivo
Não se incomoda com as pequenezas do cotidiano
Não enxerga o pequeno, ignora o vil

Do peitoril pode espalhar ao vento
Suas palavras, um doce perfume,
Pétalas delicadas de rosas,
Um suspiro de amor, uma lágrima de dor
Um pombo correio com uma dádiva para alguém especial

Porém, como toda torre,
Daquelas das princesas,
Ainda que seja proteção,
É também prisão, isolamento
E a dor da solidão e do desencontro
Fere como uma espada rasgando a alma
Aniquilando aos poucos a esperança de que, um dia,
Alguém resgate o observador

E em vez de torre,
Uma montanha para dois corações que se compreendem...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Vampiros de Sonhos


A última moda hoje em dia em relação a filmes e literatura são os vampiros.
Pseudo filhos da noite caem aos montes das árvores quando bate um vento mais forte. Tropeçamos em tentativas pífias e rudimentares de adolescentes tentando imitar os anti-heróis da moda. E o nível cultural mais uma vez cai vertiginosamente.
Mas o que tenho percebido (e talvez os verdadeiros vampiros que venham a ler este blog algum dia), é que pior do que os falsos sugadores de sangue ou do que os verdadeiros seres noturnos, são os vampiros de sonhos.
Isso mesmo, aquelas criaturas que, disfarçadas de amigos de fé, de irmãos camaradas, sugam seus planos, suas vontades, seus sonhos.
Você que está lendo agora pode até me chamar de invejosa e talvez você tenha razão. Acho que sou mesmo... Aliás, ter inveja e ser egoísta não faz parte intrínseca do ser humano??? Sou sim, invejosa e egoísta.
Quero meus sonhos só pra mim. Tenho inveja daqueles que realizaram os MEUS sonhos...
Mas principalmente, invejo aqueles que conquistam coisas que não merecem.
Invejo o cara que fez tudo errado, que prejudicou outras garotas, e que realizou o MEU sonho de se casar e, agora, de ter um filho!!! Isso é justo??? Tenho muito ciúmes do MEU sonho de achar um cara legal pra namorar, que acaba indo parar nas mãos de uma perva ou galinha qualquer...
Sou egoísta com MEU sonho de ir para terras distantes e absorver tudo o que for possível da cultura do lugar, apenas para ver outro vampiro de sonhos fazer a mesmíssima viagem para ir de compras!!! E mais uma vez a pergunta: isso é justo???
Será que levar uma vida correta, se esforçar, buscar fazer tudo direitinho, não prejudicar as pessoas, será que tudo isso compensa? Estou bastante desconfiada que não!!!
Teoria da conspiração ou não, o fato é que até as coisas que eu gostava de fazer, como a dança do ventre e o kung fu foram "karmicamente" sabotados...
E assim os vampiros de sonhos e esperanças engordam cada dia mais, alimentando-se da minha alma...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Asas



Um dia a serpente, ao encontrar-se com a borboleta
Roubou-lhe as asas e saiu a voar
Rodopiava e se exibia
Mas ouviu uma voz que dizia:
"Embora tenha as asas, jamais terá a leveza e a graça
Que a legítima borboleta tem ao planar"

Então, desdenhosa a serpente agora ataca o vagalume
E sai a faiscar pela noite,
Posando de estrela, tentando ofuscar
Mas foi interrompida pela voz a falar:
"O brilho legítimo só tem,
Quem nasce com ele, e não pelo costume"

Agora irritada a serpente se volta para o pavão
E lhe toma o leque,
Abanando, abafando, procurando hipnotizar
Mas a voz, ah, a voz, novamente lhe interrompeu:
"A admiração e o verdadeiro amor
Só se conquistam pela sinceridade que se tem no coração"

Desesperada, cheia de ódio
A serpente então enche a boca de lava vulcânica
E espalha o terror com baforadas ardentes
Mas estaca paralizada, quando a voz, agora grave e solene, critica:
"Pensas que basta o fogo para impor respeito e liderança?
Assim só conseguirás o temor e o desprezo dos mais fracos!"

Cansada daquilo tudo, então, a serpente desabafa:
"Quem és tu, e porque me vigias?
Quero ser grande, poderosa, porém admirada.
Diga-me quem és e como posso alcançar meu sonho!"
E então, de dentro de uma caverna,
Um par de olhos brilhantes, faiscando sabedoria surge na escuridão:
"Só podes alcançar teus sonhos alcançando-te a ti mesma primeiro.
Descobre teus dons, tuas habilidades naturais, tua singularidade
E descobrirás o caminho.
Tu és serpente, e como serpente deves caminhar.
Usa tua velocidade, sagacidade e, em último caso, o teu veneno,
E verás que a admiração merecida virá!"

E então um belo dragão saiu da caverna a voar,
Leve a pairar, ofuscando e fascinando,
Cativando cada olhar,
Eventualmente deixando escapar alguma chama,
Apenas para realçar sua sedução...
Sendo, naturalmente e sem fingimento, um imponente dragão!

segunda-feira, 1 de março de 2010

A vingança de Gaia


Assim era como os gregos chamavam nosso planeta Terra, iconizada na figura de uma deusa.
Por anos, e hoje mais do que nunca, as pessoas estão se questionando quanto à preservação da natureza, as consequências da super-exploração dos recursos naturais. É claro que sempre houve a consciência disso, mas pouco nos importava até que começamos a sofrer o "castigo" por nosso comportamento destrutivo.
Pensando apenas em eventos deste ano de 2010, podemos citar algumas das "vinganças" que a mãe Terra tem nos infligido: o deslizamento de terra em Angra na passagem do ano; o terremoto no Haiti; a baleia Orca que assassinou sua treinadora; o terremoto no Chile. Este último me atingiu de forma significativa, já que a maior parte de minha família vive nesse país. Felizmente nenhum deles se feriu, tendo sofrido apenas algum dano material.
É claro que desastres naturais como os terremotos não são consequência direta da ação do homem. São movimentos das camadas da terra, das placas tectônicas, que são independentes do clima terrestre. Mas não posso deixar de me questionar, em minha cabeça tão fértil para pensamentos malucos: será este o início do fim? Quem somos nós, reles formigas, circulando e usufruindo dos recursos deste planeta? Por que seres considerados inferiores a nós têm também de sofrer as consequências que Gaia está nos impondo?
Parece que este ano é realmente o ano de Murphy! Lei de Murphy na natureza, Lei de Murphy na minha vida, Lei de Murphy nos sentimentos, Lei de Murphy na humanidade cada vez mais decaída...
Bring it on, Gaia!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Dust in the wind


Este não é o primeiro blog que crio. Já tentei por diversas vezes colocar meus pensamentos e escritos na Grande Rede, mas nunca fui fiel por tempo superior a seis meses. No entanto, não deixo de tentar...
O nome "Areia ao vento" foi inspirado na música cujo nome é o título desta postagem. De alguma forma creio q ilustra o mover das minhas emoções, dos meus sentimentos. As dunas no deserto nunca estão paradas. Elas se modificam criando novas formas, jogos diferentes de luz e sombra, eventualmente revelando uma rosa-do-deserto como a da foto.
O que acontece é que mais uma vez me encontro numa encruzilhada da vida. Algo está quebrado dentro de mim e as leis de Murphy parecem mais ativas do que nunca...
Algo que considerava precioso e forte dentro da minha alma há um par de anos, a minha fé, hoje está num processo acentuado de metamorfose. É como se fosse realmente uma lagarta dentro de um casulo: você não sabe como será a borboleta ou mariposa a surgir, até que não saia... No momento tenho mais dúvidas do que certezas.
Já ouvi muitos dizerem que isso é bom, que isso fortalece a nossa fé. Só para reforçar o que disse anteriormente, a resposta que me vem à mente é: não tenho muita certeza disso.
Parece que nunca em minha vida fiz tanto as coisas como se estivesse num modo "piloto-automático". Sorrisos, delicadeza, gentileza, e até mesmo abraços e demonstrações de carinho, tudo isso que demonstro em meu exterior encobrem o grande caos e desconforto que levo dentro da alma.
O que eu quero? Quero dar um passo adiante em várias áreas da minha vida e não ser obrigada a dar dois para trás. Quero meus sonhos, minhas metas alcançadas. E quero compartilhar tudo isso com alguém especial e verdadeiro.
Quem sabe assim estas não sejam palavras soltas junto com a areia, levada ao sabor do vento...