
Um dia a serpente, ao encontrar-se com a borboleta
Roubou-lhe as asas e saiu a voar
Rodopiava e se exibia
Mas ouviu uma voz que dizia:
"Embora tenha as asas, jamais terá a leveza e a graça
Que a legítima borboleta tem ao planar"
Então, desdenhosa a serpente agora ataca o vagalume
E sai a faiscar pela noite,
Posando de estrela, tentando ofuscar
Mas foi interrompida pela voz a falar:
"O brilho legítimo só tem,
Quem nasce com ele, e não pelo costume"
Agora irritada a serpente se volta para o pavão
E lhe toma o leque,
Abanando, abafando, procurando hipnotizar
Mas a voz, ah, a voz, novamente lhe interrompeu:
"A admiração e o verdadeiro amor
Só se conquistam pela sinceridade que se tem no coração"
Desesperada, cheia de ódio
A serpente então enche a boca de lava vulcânica
E espalha o terror com baforadas ardentes
Mas estaca paralizada, quando a voz, agora grave e solene, critica:
"Pensas que basta o fogo para impor respeito e liderança?
Assim só conseguirás o temor e o desprezo dos mais fracos!"
Cansada daquilo tudo, então, a serpente desabafa:
"Quem és tu, e porque me vigias?
Quero ser grande, poderosa, porém admirada.
Diga-me quem és e como posso alcançar meu sonho!"
E então, de dentro de uma caverna,
Um par de olhos brilhantes, faiscando sabedoria surge na escuridão:
"Só podes alcançar teus sonhos alcançando-te a ti mesma primeiro.
Descobre teus dons, tuas habilidades naturais, tua singularidade
E descobrirás o caminho.
Tu és serpente, e como serpente deves caminhar.
Usa tua velocidade, sagacidade e, em último caso, o teu veneno,
E verás que a admiração merecida virá!"
E então um belo dragão saiu da caverna a voar,
Leve a pairar, ofuscando e fascinando,
Cativando cada olhar,
Eventualmente deixando escapar alguma chama,
Apenas para realçar sua sedução...
Sendo, naturalmente e sem fingimento, um imponente dragão!
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