
Abriu os olhos e tudo que viu foi o nada. Escuridão total. Tentou mais uma vez, pensando que talvez não tivesse realmente aberto os olhos. Só fez melhorar de leve a escuridão.
Tentou se levantar, mas tudo doía. Ficou lá no chão mais um pouco. Respirou fundo e se sentou. Ainda não conseguia ver nada. Só sentia. E estava frio, muito frio. E úmido. E escuro, muito escuro.
Não sabia por quê estava lá, nem como chegara lá, nem se um passado havia acontecido. Só conseguia sentir o agora, embora soubesse que já estivera lá antes. O instinto lhe disse para apalpar o chão ao seu redor.
Duro e frio e áspero. Achou um pedaço de qualquer coisa comestível e uma poça de um líquido adequado para se beber naquelas condições. Empurrou aquilo para dentro da boca, embora sem fome e sem sede. Sabia que já havia tentado sair de lá antes, mas não lembrava se conseguira de fato. Esperou durante horas que algo acontecesse. Cutucou os ouvidos para ver se estavam funcionando. E ouviu alguns ruídos. Gotas leves, gotas pesadas, um tamborilar suave que aumentou à medida que descobria a origem dos sons: suas lágrimas caindo no chão, sangue (sim, uma ferida aberta no peito destilava o líquido da vida) e seu próprio coração tamborilando tristonho e assustado e surpreso. E doía.
Deitou-se novamente, e fechou os olhos bem apertados, abraçando os próprios joelhos, tentando encontrar algum conforto e desejando que tudo acabasse ali, que algo fizesse com que tudo acabasse ali, ou que alguém viesse para acabar com tudo. E ouviu um som.
Dois sons: um áspero e um suave. O áspero lhe lançava acusações, injúrias e zombaria. "Inútil", dizia o som áspero, "sofre aí, ninguém está aqui, e a culpa é sua". Lhe passou pela mente que já ouvira tudo aquilo antes. E então veio o som suave, porém firme: "Você está aqui porque você permitiu que alguém te jogasse aqui. Mas depende só de você sair... Então, saia!!". E com os dois sons entremeados, rondando sua cabeça como dois abutres se digladiando pela presa, rilhou os dentes, arregalou os olhos e deu um grito ao erguer o corpo dolorido do chão. Percebeu que ao ficar em pé, tremendo dos pés à cabeça, tinha um pedaço de pano nas mãos. Reparou que a escuridão era mais tênue à sua frente.
Gemendo a cada movimento, pressionou aquele pano contra a ferida no peito. E então deu um passo. Arrastando o outro pé, deu um segundo. Parou. Respirou fundo, ofegando, achando que não suportaria fazer outro movimento sem sentir dores excruciantes. Mas o som antes suave, agora menos suave, mas ainda firme, circulava em sua mente: "Depende de você. Saia!!". Cambaleante, se jogou à frente. Notou que o chão conforme avançava se tornava menos áspero, menos íngreme. O chão pedia para ser trilhado, pisado. Aos poucos as forças foram invadindo seus membros, uma força que vinha das dores, da ferida exposta que ainda doía, mas só lhe fazia lembrar do que queria deixar lá atrás, e avançava. "Que força é esta? Isso sou eu?".
Agora já não andava, percebeu que corria. Mas o cansaço não lhe vinha. A escuridão estava lá atrás, mas não olhou pra lá, só olhava agora pra frente.
E ainda corre, já consegue ver uma luz, já consegue ver a própria luz emanando do que antes era uma ferida no peito, iluminando o caminho à frente. Não sabe o que tem lá no fim e nem quer saber. A satisfação de se ver cada vez mais longe do começo é suficiente. E o que vier agora, é lucro.
E finalmente, sorri.