domingo, 30 de maio de 2010

Esquecimento


Dia normal, nem calor nem frio, algumas nuvens no céu lançam sombras estranhas, que fogem apressadas pela rua. A garota anda cabisbaixa, chutando pedregulhos da calçada, volta da escola sem lembrar como chegou lá, nem como saiu. A verdade é que nada mais lhe chama a atenção, e a mente anda muito cheia de pensamentos lúgubres e vozes funestas; o coração também às voltas com ervas daninhas e espinheiros. A verdade é que ninguém a entende.
Alguém passa por ela, esbarra nos ombros da pequena, lhe lança alguns impropérios. Ela não liga; ela, realmente, nem ouve. E continua sua caminhada para algo que ela lembra ser remotamente sua casa. Vai ao encontro do conforto, embora não se sinta digna desse conforto. Os fantasmas e monstros dentro de si não acham que ela mereça.
Numa esquina então, a menina para. Algo finalmente lhe chama a atenção. Casa velha, cinzenta e marrom, árvores secas, jardim decadente. Nunca notara aquela construção na rua. Se bem que não estava notando nada naqueles últimos tempos. Parece ver um movimento no pátio traseiro da casa. Seus companheiros mentais se dividem entre atender à curiosidade e sair correndo para o conforto não-merecido.
Ela empurra o portão sem muita dificuldade, e este range ao peso da ferrugem e do tempo. Na varanda de entrada, as madeiras rangem sob os sapatos negros, quase que cantando um mantra. Ela para na porta, o debate entre suas forças internas se intensifica. Mas a curiosidade sempre a venceu, sempre foi mais forte do que qualquer demônio ou anjo que a garota tivesse dentro de si.
A porta abriu-se suavemente, como que convidando a pequena intrusa a desvendar seus mistérios. Desta vez os passos são mais cautelosos, e ela procura quase que flutuar sobre o piso frágil da casa em decomposição. Algo palpita junto com seu coração; algo que a espera e espreita no pátio traseiro. Pela janela da cozinha uma brisa, mescla de frio mortal e calidez de hálito balança o que resta das antigas cortinas de filó. A tela de arame posta para impedir os insetos de entrarem, agora só impede que se possa ver claramente a parte externa.
Quando a garota pousa a mão branca e trêmula na maçaneta da última barreira entre ela e o mistério a ser descoberto, percebe que não há mais volta. O coração para, a mente congela; apenas a mão trabalha, virando a pequena bola de metal e puxando-a de encontro a si.
E ele está lá, no meio do que um dia foi um quintal agradável e sombreado. Ele quase se confunde entre as ervas que teimosamente cresceram por entre as rachaduras do piso de terracota. Os olhos amarelos e emaciados, a pele rachada e cinzenta cobre feições que ainda revelam parte da beleza que tivera outrora, os negros cabelos em desalinho de um jovem rapaz interrompido. As vozes na mente da menina clamam em uníssono: "zumbi". Mas nada faz com que ela se mova do lugar. Os segundos parada no topo dos três degraus que conduzem ao pátio se convertem em horas. Nada se move, nem mesmo a brisa. Os dois estranhos apenas se encaram, sem expressão.
A menina desce, quase trôpega, os blocos de pedra que fazem os degraus. O zumbi também caminha, desajeitado, parando a poucos passos da garota.
Os contendores se observam. De um lado o instinto quase animal de consumir cérebro humano, paralizado por sentimentos remotos de ternura ainda presentes em seu coração pútrido, causados pela suavidade da garota. Do outro, o terror e o pânico cedem à curiosidade e a um pensamento quase mágico. Ali parece estar a resposta à dor da garota. A respiração quente, perfumada e feminina se mistura ao hálito fétido e gélido do jovem morto-vivo.
Com os dedos ossudos e arroxeados, ele toca no rosto suave e quente da garota. Quase pode sentir o sangue correndo em suas veias novamente. Em outros tempos, teria saboreado os lábios macios num beijo doce. Ela cerrou os olhos enquanto os seres dentro de si se desesperavam como baratas diante da luz. Não queria fugir. Essa era sua perdição, mas também a sua salvação.
Ele foi suave, o mais suave que um zumbi pode ser. Ao ver destruídos e extintos os negrores de sua mente e coração à medida que o jovem zumbi a consumia, ela sorriu um último sorriso, sentindo a luz encher-lhe finalmente a alma... E a garota pôde então descansar no esquecimento...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Mapa


Perdida, embora esteja aqui
Confusa, mas com os pensamentos nítidos
No escuro com todas as luzes acesas
Eu grito, mas nenhum som sai dos meus lábios
E ninguém ouve
Pulo, faço gestos, mas meu corpo permanece imóvel
E ninguém me vê
Meu pedido de socorro percorre o cyberespaço,
o cosmos, o vazio, o ar noturno
Mas se perde, como a brisa dissipa a bruma
Não quero um super-homem, um semi-deus,
Nem quero a conquista de Atlântida, a glória dos imortais
Quero ser salva, salvando ao mesmo tempo
Preencher a solidão, estender a mão
Ser a razão de alguém, desfrutar e prover
Os pequenos prazeres que carregam grandes doses de felicidade

Por enquanto, fico aqui, esperando,
Bem no meio do X

domingo, 23 de maio de 2010

Sunday boring Sunday



Quando foi que
O domingo de sol:
Brincar com os amigos,
Almoço em família,
Preguiça gostosa...
Virou uma enorme bola de demolição
Feita de tédio e solidão?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Void

Eu tô aqui, e você?
Eu nem sempre sei quem sou,
E muito menos sei quem você é
Quem somos nós? Pra onde vamos?
Não tenho a menor idéia porque perdi o mapa
Perdi a mim mesma
Não te perdi, porque nunca te achei
Mas venha, me encontre
E, se for necessário, rasgue meu coração
Mas leve embora a dor do vazio
Do vazio de sentimento
Eu prometo valer a pena
Embora, a pena do que vale, pode vir numa promessa
Então, te tiro o fôlego, te roubo um beijo,
Te arranco um pedaço da alma,
Em troca da minha
E nos embriagamos com o álcool das idéias
Até cair no esquecimento...
Esqueci...Quem é você?

domingo, 16 de maio de 2010

Seca

Quando olho ao meu redor
Tudo o que vejo é desolação
A casa vazia, abandonada
Na sala, as fotos puídas, molduras gastas
Imagens daqueles que por ali passaram
Mas que já a deixaram..
Pelos quartos vazios, corredores,
Ecos dos risos, dos suspiros, das boas conversas
Logo se esvaem quando as lágrimas se acumulam na garganta
Porém sem rolar pelas faces:
A seca que assola o campo, se apresenta também nos olhos.

E no pátio, entre os escombros de dias de sol,
Nas ruínas da primavera,
Tudo o que resta
É a sombra seca e sem folhas
Do que um dia foi árvore frondosa
Pronta a abraçar, dar alívio do calor escaldante,
Saciar o físico e o coração
Com a doçura de seus frutos.
Aqui a esperança e o sonho
Deram seu último suspiro
Junto com o último animal no pasto

Se algum dia alguém fizer voltar a chover
Pode até ser que se recupere
O meu coração
Da seca que agora o abate...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Um pouco de sol


Esses últimos tempos tenho estado meio melancólica, revoltada, e muitos sentimentos um tanto quanto negativos. Como já dito anteriormente, é porque gosto de escrever aqui o que nem sempre dá pra expressar oralmente. Ou, como chegamos à conclusão com uma amiga, quando não se tem dinheiro pra pagar um psicólogo, cria-se um blog!!
Mas andei pensando, lendo, conversando e pode ser que um artigo que li a respeito de meu signo chinês tenha uma certa razão (sim, eu leio artigos sobre horóscopo de vez em quando, me processe!!! Hehehe...). A propósito, sou Dragão de fogo. Lá dizia que os dragões, embora fiéis e dedicados aos amigos podem nem sempre demonstrar seu carinho de forma que eles entendam, podendo até parecer frios e distantes em certas ocasiões.
Então, pra compensar meus queridos amigos, queria fazer um afago, dar um abraço apertado e um beijo cálido em cada um de vocês através de minhas palavras. Claro que amigos verdadeiros, do peito mesmo, posso contar nos dedos das mãos, entre os feitos pela internet e os que estão mais próximos fisicamente de mim.
No entanto, acredito que o carinho e a compreensão independem de corpo físico, e têm muito mais a ver com mente e espírito.
Por isso e muito mais, sintam-se todos acalentados e parte importante de meu coração!
Segue agora a letra de uma música que esteve rondando minha cabeça e que expresse um pouquinho como eu me sinto em relação a cada um de vocês!

APENAS MAIS UMA DE AMOR

(Lulu Santos)

Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido
Como uma ideia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de acontecer

Eu acho isso tão bonito
de ser abstrato baby
A beleza é mesmo tão fulgaz
É uma ideia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de acontecer

Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então,
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer
E se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
E eu vou sobreviver
O que eu ganho, e o que eu perco
Ninguém precisa saber

domingo, 9 de maio de 2010

El fantasma

Como ánima viniste
En espíritu te alzaste
Y con un suspiro me llamaste

No te había buscado
No me había imaginado
Pero en un instante determinado
Mi corazón ya estaba condenado

Yo te hablaba, y me respondías
A veces te callabas
Y al aire tiraba mis palabras
(Y pienso que te reías)

Después venías y me decías
Que me amabas y que creías
Por siempre estaríamos juntos
Y entonces más una vez desvanecías

Pero en este punto ya estaba embrujada
Y aunque ya desahuciada
Podía ver, como en espejismo
Una punta de esperanza
Muy lejos, en lontananza

Y entonces como una adicta
Te buscaba con regularidad, afligida
Como si de eso dependiese mi vida
Aunque en la oscuridad, después,
Quedaba apenas la herida

Y aunque diáfano y temporal
Eras siempre dulce, tierno,
Y por eso, en este eterno invierno
Mi alma y corazón así corroídos
Necesitan liberarse, y recomponerse

Trato entonces de exorcizarte
Y lucho por olvidarte
Para que mi vida sea nuevamente arte
Y no más sea asombrada
Por tu tierna alma penada...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Pretensão


Eu não ia escrever isto, mas às vezes alguns pensamentos cruzam a nossa mente e é difícil ignorá-los. Eu tinha em mente escrever uma poesia. Na verdade, ela ainda será escrita, só que está em processo de "fermentação".

Enquanto isso, senti a necessidade de, de alguma forma, desabafar através de palavras que não as minhas... Acredito que todos os que pensam diferente do mundo lá fora, que apesar das desilusões "desce ao fundo do poço, lava o rosto e volta sorrindo" (palavras do meu amigo Ivan Almeida - citei a fonte Ivan!!! Hehehe...), todos os que uma hora ou outra se sentem alienígenas neste mundo poderiam identificar-se com o trecho de um livro que vou postar abaixo.

Eu me sinto assim muitas vezes, e esta é uma ocasião em que estou assim: solitária, mas ainda com um sentido de grandeza no fundo do ser.

Talvez isso soe como pretensão de minha parte. Pode ser. Não estou aqui pra me justificar ou pra pedir desculpas. Apenas procuro me exorcisar, como sempre.

Vou parar por aqui. O próprio texto do livro é auto-explicativo. Trata-se de um trecho de "O Sobrinho do Mago", das Crônicas de Nárnia. Diálogo entre o sobrinho em si, Digory, e seu tio André.


- ... Eu era uma das poucas pessoas que minha madrinha gostava de ver quando adoeceu gravemente. Ela não se dava com as pessoas comuns, ignorantes, entende? Também eu sou assim. Mas ambos nos interessávamos pelas mesmas coisas. Poucos dias antes de morrer, ela me disse para ir buscar em sua casa uma pequena caixa, que ela guardava numa velha escrivaninha. No momento em que toquei na caixa já senti, pelo formigamento dos meus dedos, que tinha nas mãos um vasto segredo. Deu-me a caixa e tive de fazer-lhe uma promessa: logo que ela morresse, tinha de queimar tudo, sem abrir, depois de certas cerimônias. Não cumpri minha promessa.

- Não diga! Foi muito feio de sua parte! - exclamou Digory.

- Feio? - perguntou tio André, muito admirado. - Ah, estou entendendo. Está querendo dizer que os meninos devem cumprir suas promessas. Muito bem, estou gostando de ver. Mas também deve admitir que essas regras morais, embora excelentes para as crianças... e para a criadagem... (...) e para as pessoas em geral... não podem ser aplicadas aos grandes estudiosos, aos grandes sábios, aos grandes pensadores. Não, Digory! Homens como eu, conhecedores da sabedoria oculta, não estão amarrados a essas regras vulgares... do mesmo modo como estamos distanciados dos prazeres vulgares. Nosso destino, meu filho, é solitário, mas está acima de tudo.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Quando ela se foi...


Era verão...
E junto com tantas outras crianças, ele nasceu.
Veio ao mundo puro, inocente, em branco como folha de papel pronto a ser desenvolvido, desabrochado.
Aprendeu com as experiências, amadureceu; foi ganhando mais cores, encorpando e ficando mais robusto e radiante conforme crescia.
Atingiu o ápice de seu brilho já na juventude, principalmente quando a conheceu.
Ela: brilhante e sorridente, com seus cabelos ao vento. O tomou pela mão e lá se foram os dois a rodopiar, a brincar e rir de nada e de tudo.
E assim unidos, não viram a escuridão chegar e o abismo se aproximar... Então caíram, em silêncio, não ousando prever o que aconteceria ao atingirem o fundo; apenas abraçados, aproveitando juntos os segundos que os separavam do inevitável.
Mas o terrível momento veio...
Ele desejou ter morrido quando finalmente conseguiu abrir os olhos. Ela se fora...
A dor que sentiu era insuportável, pior do que ter partido junto com sua amada.

Agora ele anda por aí, sem Esperança, morrendo aos poucos, o coração gangrenando.
E assim espero o meu Sonho moribundo ir ao encontro da Esperança que já partiu...

sábado, 1 de maio de 2010

Onomatopéia

Clic
Vush
Crack
Splash
Ooopss
Catapimba
Aimeujisuis
Boom Sock Pow
Manhêêêê
Cráááááá
Raaaassg
Rrripp
Auch
Hum
Ah!


É assim que soa
Toda vez que se faz
Uma grande e boa faxina,
Na alma e no coração
Faz muito barulho
E dói...



(mas vale muito a pena!!!)