quarta-feira, 24 de março de 2010

Asas



Um dia a serpente, ao encontrar-se com a borboleta
Roubou-lhe as asas e saiu a voar
Rodopiava e se exibia
Mas ouviu uma voz que dizia:
"Embora tenha as asas, jamais terá a leveza e a graça
Que a legítima borboleta tem ao planar"

Então, desdenhosa a serpente agora ataca o vagalume
E sai a faiscar pela noite,
Posando de estrela, tentando ofuscar
Mas foi interrompida pela voz a falar:
"O brilho legítimo só tem,
Quem nasce com ele, e não pelo costume"

Agora irritada a serpente se volta para o pavão
E lhe toma o leque,
Abanando, abafando, procurando hipnotizar
Mas a voz, ah, a voz, novamente lhe interrompeu:
"A admiração e o verdadeiro amor
Só se conquistam pela sinceridade que se tem no coração"

Desesperada, cheia de ódio
A serpente então enche a boca de lava vulcânica
E espalha o terror com baforadas ardentes
Mas estaca paralizada, quando a voz, agora grave e solene, critica:
"Pensas que basta o fogo para impor respeito e liderança?
Assim só conseguirás o temor e o desprezo dos mais fracos!"

Cansada daquilo tudo, então, a serpente desabafa:
"Quem és tu, e porque me vigias?
Quero ser grande, poderosa, porém admirada.
Diga-me quem és e como posso alcançar meu sonho!"
E então, de dentro de uma caverna,
Um par de olhos brilhantes, faiscando sabedoria surge na escuridão:
"Só podes alcançar teus sonhos alcançando-te a ti mesma primeiro.
Descobre teus dons, tuas habilidades naturais, tua singularidade
E descobrirás o caminho.
Tu és serpente, e como serpente deves caminhar.
Usa tua velocidade, sagacidade e, em último caso, o teu veneno,
E verás que a admiração merecida virá!"

E então um belo dragão saiu da caverna a voar,
Leve a pairar, ofuscando e fascinando,
Cativando cada olhar,
Eventualmente deixando escapar alguma chama,
Apenas para realçar sua sedução...
Sendo, naturalmente e sem fingimento, um imponente dragão!

segunda-feira, 1 de março de 2010

A vingança de Gaia


Assim era como os gregos chamavam nosso planeta Terra, iconizada na figura de uma deusa.
Por anos, e hoje mais do que nunca, as pessoas estão se questionando quanto à preservação da natureza, as consequências da super-exploração dos recursos naturais. É claro que sempre houve a consciência disso, mas pouco nos importava até que começamos a sofrer o "castigo" por nosso comportamento destrutivo.
Pensando apenas em eventos deste ano de 2010, podemos citar algumas das "vinganças" que a mãe Terra tem nos infligido: o deslizamento de terra em Angra na passagem do ano; o terremoto no Haiti; a baleia Orca que assassinou sua treinadora; o terremoto no Chile. Este último me atingiu de forma significativa, já que a maior parte de minha família vive nesse país. Felizmente nenhum deles se feriu, tendo sofrido apenas algum dano material.
É claro que desastres naturais como os terremotos não são consequência direta da ação do homem. São movimentos das camadas da terra, das placas tectônicas, que são independentes do clima terrestre. Mas não posso deixar de me questionar, em minha cabeça tão fértil para pensamentos malucos: será este o início do fim? Quem somos nós, reles formigas, circulando e usufruindo dos recursos deste planeta? Por que seres considerados inferiores a nós têm também de sofrer as consequências que Gaia está nos impondo?
Parece que este ano é realmente o ano de Murphy! Lei de Murphy na natureza, Lei de Murphy na minha vida, Lei de Murphy nos sentimentos, Lei de Murphy na humanidade cada vez mais decaída...
Bring it on, Gaia!